Por Kenneth L. Gentry, Jr.1
Trad. por Daniel P. Rodrigues
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, intemperantes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus. […] Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados. (2 Timóteo 3:1-4, 13, ACF)
Empregando essa passagem (e similares), o pré-milenista Kromminga e os amilenistas Hoeksema, Louis Berkhof, Herman Hanko, Leon Morris e Kim Riddlebarger concordam com Anthony Hoekema que “a expectativa pós-milenista de uma era dourada futura, anterior à volta de Cristo, não faz jus à tensão contínua na história do mundo entre o Reino de Deus e as forças do mal.”2 William Hendriksen comenta sobre essa passagem: “Esses tempos irão e virão, e o último será pior do que o primeiro. Eles serão tempos de impiedade cada vez maior (Mt. 24:12; Lc. 18:8), a qual culminará no clímax da impiedade.”3 Veja também o pré-milenista Wayne Grudem.4
Riddlebarger vê essa passagem como um problema para aqueles que sustentam a perspectiva de uma Igreja vitoriosa: “Ao longo dos últimos dias, alguns distorcerão o evangelho para satisfazer os que têm comichão nos ouvidos e angariar seguidores para si.” Ele continua, em resposta ao pós-milenismo: “Paulo advertiu que essa situação lamentável seria uma inevitabilidade para a Igreja de Cristo.”5
Os dispensacionalistas concordam. Wayne House e Thomas Ice argumentam que “a Bíblia fala de coisas progredindo ‘de mal a pior’, de homens ‘enganando e sendo enganados’ (2 Timóteo 3:13); olhamos para o mundo ao nosso redor e vemos o quão grave realmente é a situação.”6 John Walvoord está de acordo: “Com o progresso da presente era, a despeito da disseminação da verdade e da disponibilidade da Escritura, o mundo, sem dúvida, continuará a seguir a descrição pecaminosa que o Apóstolo Paulo nos deu aqui.”7 Wiersbe concorda: “Passagens como 1 Timóteo 4 e 2 Timóteo 3 pintam um retrato sombrio dos últimos dias.”8
Tais interpretações dessa passagem, no entanto, são exegeticamente falhas e anticontextuais. Nada ensinado nesses versículos contradiz o pós-milenismo. Note as seguintes observações.
Primeiro, Paulo trata de uma circunstância histórica específica no primeiro século. Ele fala das coisas que Timóteo terá de enfrentar e suportar (2 Tm. 3:10, 14). Ele não está profetizando sobre perspectivas constantes, permanentes e de longo prazo para toda a história. De igual modo, quando Paulo escreve à igreja em Corinto lamentando o fato de que “é relatado frequentemente que há fornicação entre vós” (1 Co. 5:1), não devemos tirar essa declaração de seu contexto como um princípio universal que se aplica a todas as igrejas. Ele escreve especificamente aos cristãos de Corinto.
Segundo, o texto não exige que tempos incessantemente sombrios estejam diante da Igreja ao longo de toda a história. E embora “tempos” (chairoi) difíceis venham durante os últimos dias (o período dentre o primeiro e o segundo advento, veja o cap. 13),9 isso não requer uma posição pessimista. O termo grego que Paulo emprega aqui é kairoi, que indica “estações.” É um erro lógico de quantificação ler essa referência a algumas “estações” de dificuldade como se todas as estações houvessem de ser difíceis. Os “tempos trabalhosos” (kairoi chalepoi) são “estações caracterizadas qualitativamente e especificamente determinadas.”10 Os pós-milenistas estão bem cientes das “estações” de tempos trabalhosos que afligiram a Igreja sob o Império Romano e em outras épocas.
Terceiro, essa passagem não ensina um declínio histórico que se acelera com o passar do tempo. Citar 2 Timóteo 3:13 no debate deixa a impressão injustificável de que as coisas se tornarão cada vez piores de modo irrevogável. Mas, na verdade, o versículo diz: “os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (ACF). Paulo fala de homens maus específicos tornando-se eticamente piores, não de um número cada vez maior de homens malignos tornando-se progressivamente dominante. Ele se refere à sua degeneração pessoal progressiva, i.e., a anti-santificação progressiva dos homens maus. Paulo não diz absolutamente nada sobre um aumento predestinado no número e poder de tais homens maus.
Quarto, Paulo equilibra o seu ensino com uma nota de otimismo. Como um bom pós-milenista, Paulo informa claramente Timóteo de que estes homens maus (cf. 2 Tm. 3:1) “não irão avante; porque a sua loucura será manifesta a todos os homens” (2 Tm. 3:9). Visto que Deus impõe limites sobre esses malfeitores, Paulo fala como um homem que espera a vitória. Quão diferente isso é da concepção pessimista generalizada do poder progressivo e ilimitado do mal em nossos dias. Paulo concebe a impotência última e duradoura do mal na história.11 [9]
- Fonte: Kenneth L. Gentry Jr., He Shall Have Dominion (Draper, VA: ApologeticsGroup Media, 2009), pp. 503-5 ↩︎
- Hoekema, A Bíblia e o Futuro, 214. Veja: Kromminga, The Millennium in the Church, 72, 265. Berkhof, Teologia Sistemática, 661. Hoeksema, Reformed Dogmatics, 817. Hanko, “An Exegetical Refutation of Postmillennialism,” 16-17. Morris, “Eschatology,” em EC, 4:95. Riddlebarger, A Case for Amillennialism, 238. ↩︎
- Hendriksen, I and II Timothy and Titus, 283. ↩︎
- Grudem, Teologia Sistemática, 959-60. ↩︎
- Riddlebarger, A Case for Amillennialism, 126. ↩︎
- House e Ice, Dominion Theology, 183 ↩︎
- Walvoord, PKH, 495. ↩︎
- Wiersbe, Bible Exposition Commentary, 1:249; v. tb. 2:249. Cf. Baker, A Dispensational Theology, 623. Chapman, “The Second Coming of Christ: Premillennial,” Hills, Fundamental Christian Theology, 2:341. Milne, What the Bible Teaches About the End of the World, 80-81. ↩︎
- Alguns teólogos e expositores pós-milenistas consideram que o período dos Últimos Dias, conforme descrito no Novo Testamento, se refere aos últimos dias do Israel da Antiga Aliança, concluídos em 70 d.C. A argumentação aqui exposta, no entanto, ainda permanece aplicável [N . T.] ↩︎
- Vos, Pauline Eschatology, 7n. ↩︎
- Veja: Gentry, A Grandeza da Grande Comissão, cap. 12: “Pessimismo e a Grande Comissão.” ↩︎







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