Assim como muitos pós-milenistas que adotam o preterismo parcial, o meu pensamento e abordagem foram impactados e influenciados, em certa medida, pela obra ‘A Parousia’, de J. Stuart Russell, obra cuja tradução foi tornada amplamente acessível aos leitores de língua portuguesa recentemente e a qual, devido ao seu valor histórico e acadêmico, prontamente adquiri.
É necessário reconhecer contudo que, a despeito de sua retórica e argumentos contundentes e de sua importância histórica, tal obra apresenta sérios e graves erros ao estudante da escatologia que busca manter sua ortodoxia. Em seu afã de comprovar a veracidade das profecias de Cristo no Novo Testamento e construir um sistema consistente, Russell ultrapassa os limites da ortodoxia, chegando a ponto de afirmar que a Segunda Vinda, a Ressurreição Escatológica, o Arrebatamento e o Juízo Final aconteceram em 70 d.C., simultaneamente à queda de Jerusalém.
Recentemente, tive a honra de prefaciar a Resposta a The Parousia, escrita por César Francisco Raymundo, uma leitura extremamente recomendada a todos os que buscam compreender os desvios doutrinários contidos em tal obra ou que, porventura, se sintam convencidos pela argumentação de Russell. O artigo abaixo é uma reprodução adaptada de meu prefácio a esse material.
*****
“Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” (1 Co 5:6, KJF)
É impossível subestimar ou ignorar a importância de The Parousia, de J. Stuart Russel para o desenvolvimento do Preterismo como abordagem hermenêutica. A retórica sólida e a argumentação persuasiva que perpassam toda a obra em questão a tornam, em primeira análise, semelhante a um monólito imponente e inabalável, no que tange à solidez da tese defendida por seu autor. Em união a essa poderosa retórica, há uma intenção, para todos os efeitos, de grande nobreza: nas palavras do próprio autor, “averiguar o verdadeiro significado da Palavra de Deus” com respeito à Segunda Vinda de Cristo e aos eventos escatológicos descritos na Escritura.1
Não à toa, muitos expositores ortodoxos reconhecem o impacto de The Parousia na formação de suas perspectivas escatológicas. O renomado teólogo reformado R. C. Sproul chegou a declarar que, após ler a obra em questão, “nunca poder[ia] ler o Novo Testamento novamente da mesma maneira.”2 Do mesmo modo, Kenneth L. Gentry, o mais prolífico expositor do pós-milenismo das últimas décadas, descreve a obra de Russell como “magistralmente escrita”,3 embora condene suas conclusões últimas.
Eu mesmo, assim como os grandes nomes mencionados anteriormente, fui grandemente influenciado pela obra que é o assunto do presente tratado, e vejo-me compelido a reconhecer o seu valor ao leitor judicioso e munido de discernimento. No entanto, vejo-me ainda mais obrigado a reconhecer o que existe por trás de sua cativante retórica e sua argumentação altamente persuasiva: o pequeno e quase imperceptível, mas altamente devastador “fermento” da heterodoxia, o qual, como as Sagradas Escrituras nos alertam, “leveda a massa toda” (1 Co 5:6, KJF).
No afã de comprovar a validade das profecias contidas no Novo Testamento, J. S. Russell dispõe-se a romper quase que por completo com a ortodoxia cristã no que tange à Escatologia, afirmando que a Segunda Vinda, o Arrebatamento dos Santos, o Juízo Final e a Ressurreição Geral todas aconteceram em 70 d.C., em meio aos eventos circundantes à Guerra Judaico-Romana.
A negação de tais pontos não consiste numa mera divergência em pontos secundários, mas uma negação e oposição frontal à esperança mantida pela Igreja de Cristo desde sua fundação. Conforme o notório teólogo reconstrucionista David Chilton bem assevera:
Independentemente do que se possa dizer a respeito daqueles que sustentam tais noções, está claro que elas não estão em conformidade com nenhuma forma reconhecível de cristianismo ortodoxo. A Igreja una, santa, católica e apostólica sempre e em todos os lugares insistiu na doutrina do Juízo Final no fim dos tempos. Sua inclusão em todas as definições históricas da Fé é um testemunho universal de sua importância como um artigo de crença.4
A fim de validar sua argumentação e conclusões, Russell evoca para si o legado dos Reformadores de plena dependência no que é declarado pelas Escrituras:
A obra é quase inteiramente exegética; e não há qualquer tentativa de inventar ou estabelecer uma teoria, mas apenas de, por meio de uma interpretação honesta e fiel das Escrituras do Novo Testamento, permitir que elas falem por si mesmas.5
O fundamento do modus operandi Russell, todavia, não é o Sola Scritpura da Reforma, mas uma corrupção deste. O teólogo reconstrucionista Gary North, ao discorrer sobre a afirmação de Russell citada acima, adverte: “Sempre que alguém te disser que está meramente deixando os fatos falarem por si próprios, e que não possui nenhuma agenda oculta ou teoria subjacente, eu fortemente te aconselho a manter sua mão sobre a sua carteira e suas costas contra a parede.”6
A primazia das Escrituras no que tange à fé e à doutrina e a rejeição aos acréscimos de Roma, conforme defendida pelos Reformadores, jamais envolveu um enfoque revolucionário ou um divórcio da ortodoxia cristã. Conforme o teólogo reformado P. Andrew Sandlin o declara:
Ao contestarem a teoria revelacional das “duas fontes” postulada por Roma, os reformadores protestantes não estavam jamais argumentando que a doutrina da igreja do Ocidente era totalmente errônea. Os reformadores eram apenas isto: reformadores, não revolucionários. Eles estavam dispostos a defender a ortodoxia ecumênica herdada da Igreja Latina, por exemplo. Os reformadores eram todos trinitarianos, e aderiam aos dogmas dos concílios ecumênicos. Eles agiam assim, não porque reconheciam a autoridade final dos concílios da igreja, mas porque criam que esses concílios ecumênicos expressaram os ensinos bíblicos sobre os elementos centrais do cristianismo.7
A ortodoxia cristã, conforme descrita nos credos, não é meramente uma questão de opinião pessoal por parte do cristão individual. Uma vez que esta ortodoxia é a descrição sintetizada dos ensinos bíblicos concernentes aos fundamentos do cristianismo, sua rejeição leva, por fim, ao individualismo interpretativo.
Como Andrew Sandlin bem declara, ao se abraçar o individualismo interpretativo, “a Bíblia não é mais a fonte da interpretação da Bíblia; antes, a mente do homem (falsamente igualada com a direção do Espírito Santo) é considerada como a fonte da interpretação da Palavra de Deus.”8 Este individualismo interpretativo, por sua vez, gera um relativismo doutrinário com respeito a outros princípios fundamentais do Cristianismo.
Não é de se admirar que o relativismo doutrinário fomentado por Russell, por diversas vezes, leva leitores incautos de sua obra a abraçarem de forma absoluta o herético Preterismo Completo. Embora Russell não fora um ‘Preterista Completo’ strictu sensu e tenha buscado se afastar de seus contemporâneos mais radicais,9 afirmando o fim do milênio e o julgamento de Satanás como eventos futuros,10 é inegável o fato de que muitos leitores de sua obra, quando desprovidos do preparo doutrinário ou do discernimento espiritual adequado, abraçam o Preterismo Completo em sua plenitude. Gary North assevera que “o livro de Russell é uma fonte comum e amplamente aceita pelos defensores contemporâneos do preterismo herético.”11
Isso é demonstrado pelo fato de Max R. King, fundador do movimento moderno do Preterismo Completo, ter recorrido a Russell como precedente histórico para sua visão, no prefácio à segunda edição de uma de suas obras:
Naquela época [i.e., durante a escrita da primeira edição], não estava ciente de que outros já tinham escrito sobre esse assunto [i.e., Escatologia Consumada] nos séculos anteriores, como J. S. Russell (1816-1895).12
Dadas as consequências últimas dos princípios aplicados por Russell em sua argumentação e de suas conclusões resultantes, é de extrema importância que aqueles que almejam estudar e adotar uma escatologia vitoriosa e compreender as profecias contidas no Novo Testamento à luz de seu cumprimento histórico não sejam como “crianças inconstantes, levadas de um lado para outro por todo vento de doutrina” (Ef 4:14, BL), mas que continuem a “batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Jd 3), rejeitando toda posição e ensino que contradiga a clara revelação das Escrituras e a gloriosa e bendita esperança mantida pelo Corpo de Cristo desde seu princípio.
- J. Stuart Russell, A Parousia (ed. independente, 2026), p. 16. ↩︎
- R. C. Sproul, “Foreword”, em The Parousia (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1999), p. x. ↩︎
- Kenneth L. Gentry Jr., He Shall Have Dominion (Draper, VA: Apologetics Group, 2009), p. 277 n 3. ↩︎
- David Chilton, Os Dias de Vingança (Sumaré, SP: Pós-Milenismo Produções, 2025), p. 550. ↩︎
- Russell, A Parousia, p. 521. ↩︎
- Gary North, Judgment and Dominion (Dallas, GA: Point Five Press, 2012), p. 280. ↩︎
- P. Andrew Sandlin, em Sandlin e Rushdoony, Infalibilidade e Interpretação (Brasília, DF: Monergismo, 2018), p. 91. Grifo adicionado. ↩︎
- Ibid., p. 54. ↩︎
- Embora o Preterismo Completo não tenha existido como movimento antes de Max R. King, existiram poucos expositores anteriores a ele a proporem um preterismo heterodoxo, com a afirmação de um Milênio já consumado, no século XIX. Tais escritores, porém, não deixaram herdeiros teológicos, e seus poucos escritos não deram início a movimentos ou tradições. ↩︎
- Russell, A Parousia, pp. 479-82. ↩︎
- North, Judgment and Dominion, p. 267. ↩︎
- Max R. King, The Spirit of Prophecy (Colorado Springs, CO: Bimillennial Press, 2002), p. 5. ↩︎







Deixe um comentário