John Lightfoot sobre João 21:22

John Lightfoot sobre João 21:22

Por John Lightfoot1
Introdução por Daniel P. Rodrigues

Neste segundo artigo de nossa série sobre a interpretação escatológica de John Lightfoot (1602-1675) e seus pontos de contato com o Preterismo Parcial moderno, abordaremos o seu comentário à resposta de Jesus à indagação de Pedro acerca do destino do Discípulo Amado, proveniente de sua célebre obra Horae Hebraicae et Talmudicae.

Novamente contrariando as alegações de que o Preterismo Parcial não possuiria sustentáculo histórico ou contradiria a tradição reformada, observaremos que o hábil teólogo e hebraísta relaciona a vinda de Cristo mencionada na passagem ao juízo contra Jerusalém, bem como retoma a sua interpretação com respeito à inauguração pretérita dos Novos Céus e Nova Terra em seu arcabouço argumentativo, a qual abordamos no artigo anterior da série.

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“Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, o que é isso para ti? Segue-me tu..” Jo 21:22

Ἐὰν αὐτὸν θέλω μένειν ἕως ἔρχομαι: “Se eu quero que ele fique até que eu venha”. Até que eu venha: ou seja, até que eu venha para destruir a cidade e a nação dos judeus. Quanto a este tipo de expressão, vejamos alguns exemplos:

Nosso Salvador diz, em Mt 16:28: “Há alguns dos que estão aqui que não provarão a morte até que vejam o Filho do Homem vindo no Seu Reino”; o que não deve ser compreendido como a Sua vinda para o Juízo Final; pois não havia ali ninguém que pudesse viver até aquele tempo: nem deve ser compreendido como a ressurreição de Cristo, como alguns sugerem; pois provavelmente não apenas alguns, mas, de certa forma, todos os que ali estavam viveram até esse tempo. Sua vinda, portanto, nesta passagem, deve ser entendida como a Sua vinda para se vingar daqueles seus inimigos que não queriam que ele reinasse sobre eles, como em Lc 19:12, 27.

Talvez o leitor das Sagradas Escrituras não se arrependa de observar estas poucas coisas:

I. Que a destruição de Jerusalém e de todo o estado judaico é descrita como se toda a estrutura deste mundo estivesse prestes a ser dissolvida. E isso não é de se estranhar, uma vez que Deus destruiu Sua própria habitação e cidade, lugares outrora tão queridos para Ele, com uma ruína tão terrível e triste; afligindo o seu próprio povo, a quem Ele valorizava tanto ou mais do que a todo o resto do mundo, com pragas tão terríveis e espantosas. Mt 24:29, 30: “O sol escurecerá”, etc. “Então aparecerá o sinal do Filho do Homem”, etc.; coisas acerca das quais, no entanto, se diz que ocorreriam dentro daquela geração, v. 34. 2Pe 3:10: “Os céus passarão com grande estrondo, e os elementos hão de derreter com calor intenso”, etc. Compare com isso Dt 32:22, Hb 12:26: e observe que por elementos entendem-se os elementos mosaicos, Gl 4:9, Cl 2:20: e não restará dúvida de que São Pedro fala apenas da conflagração de Jerusalém, da destruição da nação e da abolição da dispensação de Moisés.

Ap 6:12, 14: “O sol tornou-se negro como saco de cilício, etc. e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola”, etc. Passagem na qual, se atentarmos para as pragas precedentes pelas quais, de acordo com as ameaças mais frequentes, Ele destruiu aquele povo, a saber, a espada (v. 4), a fome (vv. 5 e 6) e a peste (v. 8); e compararmos aquelas palavras: “Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós; e aos outeiros: Cobri-nos”, com Lc 23:30; ficará suficientemente claro que por essas expressões se entende o terrível juízo e a ruína daquela nação e cidade. Com isso também concorda Jr 4:22-28, o que explica com bastante clareza esta expressão. A isso pertencem essas e outras expressões semelhantes que encontramos em 1Co 10:11, “Sobre nós são chegados os fins dos séculos”; e 1Pe 4:7, “O fim de todas as coisas está próximo”.

II. Com referência a isso, e dentro deste conceito, os tempos que precedem imediatamente esta ruína são chamados de ‘os últimos dias’ e os últimos tempos, אֲחֲרִית הַיָּמִים: isto é, os últimos tempos da cidade, da nação e da economia judaicas. Esta maneira de falar ocorre frequentemente, a qual que o próprio São João interprete, em 1Jo 2:18: “Há muitos anticristos; pelo que sabemos que é o último tempo”; e que esta nação está à beira da destruição, uma vez que já chegou ao cúmulo da infidelidade, da apostasia e da impiedade.

III. Com a mesma referência é que os tempos e o estado das coisas imediatamente após a destruição de Jerusalém são chamados de ‘uma nova criação’, ‘novos céus’ e ‘uma nova terra’, em Is 65:17: “Eis que crio novos céus e nova terra”. Quando isso deveria ocorrer? Leia o capítulo inteiro e descobrirá que os judeus foram rejeitados e cortados; e que a partir desse momento surge essa nova criação do mundo evangélico entre os gentios. Compare 2Co 5:17 com Ap 21:1, 2; onde, sendo a velha Jerusalém cortada e destruída, uma nova a sucede; e novos céus e uma nova terra são criados.

2Pe 3:13: “Nós, porém, segundo a Sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra”. Os céus e a terra da igreja e comunidade judaicas devem ser inteiramente incendiados, e os elementos mosaicos queimados: mas nós, de acordo com a promessa que nos foi feita pelo profeta Isaías, aguardamos, quando todas essas coisas forem consumidas, a nova criação do estado evangélico.

IV. O dia, o tempo e o modo de execução desta vingança sobre este povo são chamados de ‘o dia do Senhor’, ‘o dia de Cristo’, ‘Sua vinda nas nuvens, em Sua glória, em Seu reino’. E isso não se dá sem razão; pois é daqui que esta forma e modo de falar têm a sua origem: Cristo ainda não havia aparecido senão em um estado de humilhação; desprezado, blasfemado e, por fim, assassinado pelos judeus: Seu evangelho rejeitado, ridicularizado e pisoteado. Seus seguidores perseguidos com ódio extremo, perseguição e a própria morte. Finalmente, portanto, Ele se manifesta em sua glória, em seu reino e poder; e chama por esses seus cruéis inimigos, para que sejam mortos diante dele. At 2:20: “Antes que chegue o grande e glorioso dia do Senhor”. Notemos como São Pedro aplica essa profecia de Joel àqueles mesmos tempos; e ficará bastante claro, sem qualquer comentário, o que é esse ‘dia do Senhor’.

2Ts 2:2: “Como se o dia de Cristo estivesse perto”, etc. A isso também pertencem passagens como Hb 10:37, “Porque por mais um pouco de tempo, aquele que há de vir virá”; Tg 5:9, “Eis que o juiz está à porta”; Ap 1:7, “Ele vem com as nuvens”; e 22:12, “Eis que cedo venho”. Junto a muitas outras passagens dessa natureza, todas as quais devem ser entendidas da vinda de Cristo em juízo e vingança contra aquela nação iníqua: e é exatamente neste sentido que as palavras que agora temos diante de nós devem ser tomadas, e de nenhuma outra forma: “Quero que Ele fique até que eu venha”. “Quanto a ti, Pedro, sofrerás a morte pelas mãos dos teus compatriotas, os judeus: mas, quanto a Ele, quero que fique até que eu venha e me vingue desta geração; e se eu assim o quiser, que te importa?”. A história que se conta sobre ambos esses apóstolos confirma esta exposição; pois é tido como certo por todos que São Pedro recebeu sua coroa de martírio antes de Jerusalém cair; e que São João sobreviveu às suas ruínas.

  1. John Lightfoot, Hebrew and Talmudical Exercitations upon the Gospel of St. John em Robert Gandell, org., Horae Hebraicae et Talmudicae: Hebrew and Talmudical Exercitations upon The Gospels, The Acts, some chapters of St. Paul’s Epistle to the Romans and The First Epistle to the Corinthians, vol. 3 (Oxford: University Press, 1859), pp. 451-454. ↩︎

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