Por Jay Rogers.1
Trad. por Daniel P. Rodrigues
Embora exposições abrangentes, versículo a versículo, de Mateus 24 não existam entre os mais antigos Pais da Igreja, eles fizeram referências surpreendentemente frequentes à “abominação da desolação” encontrada no Livro de Daniel (9:27, 11:31, 12:22). Quando Jesus profere a sua advertência parentética, “quem lê, entenda” (Mt 24:15), Ele aponta diretamente para aquelas profecias em Daniel 9 e 12. Hugo Grotius corretamente observa que isso se refere a Daniel:
Mas isso também vem de Daniel: וְתֵדַע וְתַשְׂכֵּל, “Sabe, portanto, e entende.”2
Eu não sustento popular a teoria sinóptica de que esta expressão tenha sido meramente um aparte editorial, parentético, inserido por Marcos e posteriormente copiado por Mateus. Antes, foi uma ordem urgente e direta do próprio Jesus, instando Seus ouvintes – e, em caráter secundário, aos leitores dos Evangelhos – a examinar as palavras de Daniel e reconhecer que o seu cumprimento estava às portas.
Em meu livro anterior, In the Days of These Kings: The Book of Daniel in Preterist Perspective [Nos Dias Destes Reis: O Livro de Daniel sob uma Perspectiva Preterista], eu compilei quase todas as referências a Daniel feitas pelos Pais da Igreja até o século VI. O que se segue é uma seleção criteriosa daquela obra, concentrando-se especificamente em casos em que os Pais associaram Daniel aos eventos de Mateus 24. Como você verá, os escritores cristãos primitivos ofereceram interpretações preteristas que apontavam para os eventos de 70 d.C. com uma frequência muito maior do que hoje se reconhece comumente. Antes de Grotius, as interpretações patrísticas dos textos apocalípticos eram altamente ecléticas. Foi em grande medida devido à sua influência fundamental que a abordagem preterista se consolidou como uma escola de pensamento mais consistente e sistemática.
A Epístola de Barnabé (c. 131)
A Epístola de Barnabé alude à destruição do Templo em 70 d.C. como um cumprimento preterista da profecia de Daniel 9:24-27. O escritor observa que o edifício físico foi derrubado por causa da guerra, apontando para o fim do sistema sacrificial judaico:
No que se refere ao templo, eu vos direi ainda como esses infelizes extraviados puderam sua esperança num edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. […] De fato, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. […] Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: “Acontecerá no fim dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a sua torre.” E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. […] De fato, está escrito: “Quando a semana estiver terminada, será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor.” [cf. Dn 9:24-27] (Barnabé 16)3
Tertuliano de Cartago (155-240)
Tertuliano oferece uma clara interpretação preterista de Daniel, ao ligar a destruição de Jerusalém e a vinda de Vespasiano ao fim das “setenta semanas.”
Portanto, devem ser investigados os tempos da predita e futura natividade de Cristo, e de Sua paixão, e do extermínio da cidade de Jerusalém, isto é, sua devastação. Pois Daniel diz que tanto a cidade santa quanto o lugar santo são exterminados juntamente com o Príncipe que vem, e que o pináculo é destruído até a ruína. [cf. Daniel 9:26] […] (Resposta aos Judeus 8)
Vespasiano, no primeiro ano de seu império, subjuga os judeus em guerra; e completam-se 52 anos e seis meses. Pois ele reinou onze anos. E assim, no dia [de sua tomada de] assalto, os judeus cumpriram as 70 semanas preditas em Daniel. (Resposta aos Judeus 9)4
Clemente de Alexandria (150-215)
Tito Flávio Clemente, conhecido como Clemente de Alexandria, foi o primeiro Pai da Igreja conhecido a interpretar explicitamente tanto Daniel quanto Mateus 24 em conjunto a partir de uma perspectiva preterista. Ao comentar Daniel 9:27 acerca da “Abominação da Desolação”, também referenciada em Mateus 24:15, ele interpretou as “duas mil e trezentas tardes e manhãs” de Daniel 8:14 e os “mil trezentos e trinta e cinco dias” de Daniel 12:12 como tendo ocorrido no período entre Nero e Vespasiano:
Na metade da semana, Nero exercia o poder, e, na santa cidade de Jerusalém, pôs a abominação; e na metade da semana, ele foi tirado, e Otão, e Galba, e Vitélio. E Vespasiano ascendeu ao poder supremo, e destruiu Jerusalém, e desolou o lugar santo. E que assim são os fatos, fica claro àquele que é capaz de entender, como disse o profeta. (Stromata 1:21)
Orígenes de Alexandria (185-254)
Em Contra Celso, Orígenes emprega informações da obra A Guerra dos Judeus de Josefo a fim de provar que a profecia de Daniel e de Mateus 24 a respeito da destruição do Templo de Jerusalém se cumpriu. Orígenes reconheceu a ligação entre as “setenta semanas” de Daniel 9 e o Sermão Profético:
Que o judeu de Celso, que não acredita que Jesus tenha previsto o que ia acontecer, considere de que maneira Jesus predisse os sofrimentos que os romanos [infligiriam], quando Jerusalém ainda estava de pé e era o centro do culto de toda a Judeia. […] Mas está escrito: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação” (Lc 21:20). Não havia então nenhum exército em volta de Jerusalém […] O cerco só começou sob o reinado de Nero e durou até o governo de Vespasiano, cujo filho, Tito, destruiu Jerusalém. (Contra Celso 2:13)
Refutem quem quiser esta afirmação como mentirosa se, de fato, a nação de todos os judeus não foi expulsa de seu país antes mesmo que uma geração tivesse passado desde que Jesus sofreu assim da parte deles. Quarenta e dois anos, creio eu, depois da crucifixão de Jesus, caiu sobre Jerusalém a destruição. (Contra Celso 4:22)5
As Homílias Clementinas (c. 250 a 350)
As Homílias Clementinas (escritas por um autor desconhecido, referido como “Pseudo-Clemente”) demonstram que, no terceiro século, era uma crença comum que Mateus 24 tinha se cumprido em 70 d.C.
Consequentemente, portanto, ao profetizar acerca do templo, Ele disse: “Vês estes edifícios? Em verdade vos digo, não será deixada aqui pedra sobre pedra que não seja arrancada [Mt 24:2]; e esta geração não passará até que a destruição se inicie [Mt 24:34]. […]” E, de maneira semelhante, Ele falou em palavras claras as coisas que certamente aconteceriam, as quais podemos ver com nossos olhos, para que o cumprimento esteja entre aqueles aos quais a palavra foi falada. (Homílias Clementinas 3:15).
Eusébio de Cesareia (263-339)
Em sua História Eclesiástica, Eusébio explicitamente afirma que a “abominação da desolação” é a destruição do Templo de Jerusalém pelas forças de Vespasiano, conforme profetizado em Daniel 9 e 12, e em Mateus 24:
[…] a índole de toda a guerra, os acontecimentos que nela se sucederam e como, finalmente, a abominação da desolação anunciada pelos profetas se instalou no próprio templo de Deus, tão célebre antigamente, que sofreu todo tipo de destruição e, por último, foi aniquilado pelo fogo: tudo isso encontrará na narrativa escrita por Josefo. […] É justo acrescentar a pregação infalível de nosso Senhor pela qual mostrava estas mesmas coisas quando profetizava assim: “Ai das que estiverem grávidas […] porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido, nem haverá jamais” [Mt 24:19-21]. […] Estes acontecimentos ocorreram deste modo no segundo ano do império de Vespasiano, segundo as predições de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. […] (História Eclesiástica 5:4; 7:1, 3)6
Dídimo, o Cego, de Alexandria (c. 313-398)
Dídimo, o Cego, relacionou as profecias do Sermão Profético diretamente à destruição do Templo:
O destino terrível que foi ameaçado sobreveio à Judá material e á sua capital, que de fato foi destruída a ponto de não mais restar “pedra sobre pedra” [Mt 24:2] […] Ao se aproximar de Jerusalém, o Salvador dissera que isso lhe aconteceria: “Jerusalém, Jerusalém […] vossa casa vos é deixada em ruínas” [Mt 23:38]. “Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos”, diz a Escritura, lembrai-vos, “sabereis que a sua devastação se aproxima” [Lc 21:20]. Os assassinos do Senhor tiveram experiência real disso quando os romanos os sobrepujaram, destruíram as suas cidades e os escravizaram […] (Comentário em Zacarias)
João Crisóstomo (c. 349-407)
João Crisóstomo desenvolveu uma interpretação detalhada de Mateus 24 a partir de uma perspectiva semelhante à do preterismo parcial, identificando explicitamente a “abominação da desolação” com os exércitos romanos:
“Então, que aqueles que estão na Judeia fujam às montanhas […]” [Mt 24:16-18]. Tendo falado das aflições que haveriam de acometer a cidade […] Ele diz: “Então, que aqueles que estão na Judeia fujam às montanhas.” Então, quando? Quando estas coisas acontecessem, quando a abominação da desolação estivesse posta no lugar santo [Mt 24:15]. Por isso, parece-me que Ele está falando dos exércitos. Fugi, portanto, diz Ele, pois, doravante, não há mais esperança de salvação para vós.
Vedes, pois, que o Seu discurso é dirigido aos judeus, e que Ele trata das aflições que os acometeriam? Pois os apóstolos certamente não haveriam de guardar o Sábado, nem de estar ali, quando Vespasiano fez essas coisas. […] Portanto, Ele diz que “haverá tribulação tal como nunca houve, nem haverá. E a menos que aqueles dias fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria” (Homílias 75 e 76 em Mateus 24)
Jerônimo (c. 347-420)
Jerônimo prontamente aplicou uma interpretação preterista, relacionando Daniel com Mateus 24 sempre que isso obviamente se ajustasse ao contexto. Ele repete o ensino de que as setenta semanas de Daniel 9 apontam para a destruição de Jerusalém sob Vespasiano:
Aquele “quem lê, entenda” [Mt 24:15] é dito para nos conduzir à compreensão mística do lugar. O que lemos em Daniel é isso: “E no meio da semana, o sacrifício e a oblação serão tirados, e no Templo estará a abominação de desolações até a consumação do tempo” [Dn 9:27].
Mateus 24:15 – “Portanto, quando virdes a ‘abominação da desolação’, da qual falou Daniel, o profeta, posta no lugar santo; quem lê, entenda.” Ou pode ser entendida como referindo-se à estátua de César, que Pilatos pôs no templo; ou à estátua equestre de Adriano, que permaneceu até o tempo presente no próprio Santo dos Santos. Pois, segundo a Antiga Escritura, um ídolo é chamado de “abominação”; “da desolação” é acrescentado porque o ídolo foi posto num Templo desolado e abandonado (citado na Catena Aurea)
Agostinho de Hipona (354-430)
Agostinho entendia a Grande Tribulação como cumprida em 70 d.C. Ele escreveu que a profecia de Daniel 9 se cumpriu quando as tropas romanas destruíram o Templo em Jerusalém:
Lucas, o evangelista, ensinou, todavia, que esta abreviação dos dias e a abominação da desolação dizem respeito à destruição de Jerusalém. […] Pois Josefo, que escreveu a história dos judeus, diz que tamanhos males sobrevieram àquele povo naquele tempo que mal pareciam críveis […] (Epístola 199)
Pois não suponhamos que esta abreviação dos dias tenha interferido no cálculo das semanas de Daniel […] pois Lucas testifica com toda clareza que a profecia de Daniel foi cumprida no tempo em que Jerusalém foi destruída. (Mateus 24:22, citado na Catena Aurea)
Lucas registrou aqui estas palavras do Senhor para mostrar que a abominação da desolação, profetizada por Daniel, e da qual Mateus e Marcos haviam falado, foi cumprida no cerco de Jerusalém (Lucas 21:20, citado na Catena Aurea)
Teodoreto de Cirro (c. 393-458)
O comentário de Teodoreto conecta explicitamente a “abominação da desolação” de Daniel às advertências de Jesus em Mateus 24:
O Senhor também, nos sagrados Evangelhos, predisse aos Seus santos discípulos: “Quando virdes a abominação da desolação mencionada em Daniel, o profeta, reconhecei que a sua desolação está próxima. Então será o tempo de os que estiverem na Judeia fugirem às montanhas, e de que aquele que estiver no telhado não descer para pegar alguma coisa de sua casa.” Ele disse isso para enfatizar a rapidez do desastre que estava prestes a acometê-los. […] Por isso vos digo: vossa casa será deixada desolada” [Mt 24:14-17; 23:37-38]. Predizendo isso, o santo Gabriel, após profetizar o fim do culto segundo a lei, acrescentou também: “no Templo, uma abominação da desolação” (Interpretação de Daniel, em Daniel 9:27)
Conclusão
O registro histórico fala por si só. Longe de ser uma invenção teológica tardia da Contrarreforma do século XVII, a interpretação preterista de Mateus 24 e do Livro de Daniel está profundamente enraizada nos primeiros séculos da Igreja. Ao examinar os escritos dos Pais da Igreja – desde a Epístola de Barnabé e Tertuliano até gigantes teológicos como Orígenes, Eusébio, Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho – emerge um padrão inegável. Estes líderes cristãos antigos repetida e explicitamente relacionaram a “abominação da desolação” de Daniel e as advertências de Cristo no Sermão Profético com a destruição de Jerusalém e do Templo pelos exércitos romanos em 70 d.C. Embora a escatologia na era patrística tenha sido inegavelmente eclética, o grande volume, a continuidade cronológica e a diversidade geográfica destas interpretações preteristas específicas dão forte respaldo à minha tese: a crença de que as profecias de Jesus concernentes à Grande Tribulação foram cumpridas no primeiro século foi amplamente sustentada e era plenamente ortodoxa e fundamental na Igreja antiga, muito antes de Hugo Grotius sistematizá-la para a era moderna.
- Fonte: Hugo Grotius, The Sign of His Coming: A Preterist Commentary on the Mount Olivet Discourse, Jay Rogers e Kenneth L. Gentry Jr., eds. (Clermont, FL: Media House International, 2026), pp. 180-187 ↩︎
- Daniel 9:25-27; cf. 12:8-10. ↩︎
- Citado a partir de Patrística – Padres Apostólicos – Vol. 1 (São Paulo, SP: Editora Paulus, 2014). [N. T.] ↩︎
- Citado a partir de Tertuliano, Resposta aos Judeus (Lírio Católico: n.d.). Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/padres_igreja/view/tertuliano/resposta_aos_judeus
Acesso em 5 de set. de 2026. ↩︎ - Citado a partir de Patrística – Contra Celso – Vol. 20 (São Paulo, SP: Editora Paulus, 2014) [N. T.] ↩︎
- Citado a partir de Eusébio, História Eclesiástica, trad. Wolfgang Fischer (São Paulo, SP: Fonte Editorial, 2019) [N. T.] ↩︎







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