Introdução por Daniel P. Rodrigues
Em minha live com o Gabriel Ennes acerca da sistematização e desenvolvimento históricos do pós-milenismo,1 mencionei uma obra raramente comentada de Eusébio de Cesareia, A Teofania, bem como discorri brevemente sobre seu tradutor original, o linguista e teólogo britânico Dr. Samuel Lee, e a influência desta obra para a sua defesa do Preterismo.
Recentemente, a obra em questão foi lançada em território em uma tradução para a língua portuguesa e, dado o valor histórico tanto da obra em si, quanto dos ensaios introdutórios do Dr. Lee, a adquiri. O que motivou, porém, a publicação desta breve postagem não é a obra em si, nem o seu lançamento, mas a maneira na qual esta tratou o material introdutório do Dr. Lee e suas posições.
Além da total e completa omissão das notas de rodapé originais do Dr. Lee (ao que tudo indica, ao longo de toda a obra!), a falta de indicação de que os ensaios introdutórios são de sua autoria e da inclusão de subtítulos adicionais, sem indicação de que estes são acréscimos editoriais (embora justificados), a total ausência de tratamento, mesmo que simples, das nuances da perspectiva escatológica sustentada pelo Dr. Lee, acaba por transmitir ao eventual leitor desprovido de contextualização adicional a impressão incorreta a respeito de seus posicionamentos.
No ensaio introdutório do Dr. Lee acerca do Milenarismo (“Dissertação Preliminar sobre o Reinado Pessoal de Cristo na Terra”, pp. 79-83), na seção em que Lee aborda a iminência profética demonstrada em algumas passagens do Novo Testamento, não apenas há a total ausência quaisquer esclarecimentos ou qualificações a respeito das nuances de sua posição, como também há o acréscimo do subtítulo “A Conclusão: A Vinda de Cristo Já Ocorreu” (p. 83). Isso levaria um leitor desprovido de conhecimento prévio a concluir que o tradutor original da obra sustentava, assim como o hiperpreterismo moderno, que a Vinda Consumativa de Cristo ocorrera em 70 d.C., assim como permite o uso impróprio das declarações de Lee em favor de desvios teológicos contemporâneos.
O presente artigo não tem a intenção de fazer uma análise aprofundada do posicionamento escatológico do Dr. Lee, ou igualá-la às posições que sustentamos, mas explicitar, por meio de breves citações, o que ele de fato sustentava a respeito da Vinda de Cristo em Juízo Final e a Ressurreição Geral na Consumação, a partir de suas obras.
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A Ressurreição Geral
São João nos informa ainda que, a partir desse tempo e após ele — ou seja, necessariamente após este Milênio —, os santos deveriam “reina[r] para todo o sempre” (Ap 22:5), isto é, como um Sacerdócio Real no reino eterno do Filho do Homem. Pois este reino não tem fim na linguagem da profecia, embora na da doutrina o tenha, a saber: quando o Arcanjo descer, os mortos em Cristo ressuscitarem primeiro, e os Santos que então restarem forem transformados num momento, e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares.2
V. tb. o já publicado ensaio, A Ressurreição dos Mortos e a Razão.
A Vinda em Juízo Final
É em juízos semelhantes a estes que São João O vê como Ele é, isto é, como era em seus dias e nos dias anteriores; e é pela fé em Sua palavra que ele também O vê como Aquele que era, e que é, e que ainda há de vir, isto é, para o juízo final de todos os homens. De maneira semelhante, São Paulo diz a Seu respeito que “Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13:8). São João, de igual modo, emprega esse tipo de linguagem de maneira análoga, quando diz (Ap 1:19): “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e […] as que hão de ser depois destas”, marcando assim os diferentes períodos de tempo visados neste livro, e não os da eternidade. Quando São João diz que nosso Senhor “há de vir”, a queda tanto de Jerusalém quanto do Poder perseguidor romano são primeiramente intencionadas; porém, como somos ensinados em outras partes que Ele será finalmente o Juiz de todos, devemos necessariamente incluir isso neste último de Seus atributos, a saber, “que há de vir”. E, de modo semelhante, os castigos a serem infligidos aos judeus incrédulos (Is 66:24) são tomados pelo próprio nosso Senhor (Mc 9:43, 46, 48) para representar os dos condenados finais. E, assim também, o vale do filho de Hinom (isto é, Tofete, 2Rs 23:10; Is 30:33) é estabelecido para representar o inferno no Novo Testamento, na forma γέεννα (do hebraico גֵּיא בֶן־הִנֹּם) (Mt 5:22, 29, 30, etc.). Concluo, portanto, que, pelos termos “que era, que é e que há de vir”, devemos considerar a Cristo em Seu caráter judicial; e que devemos ver cada um dos juízos aqui visados como garantias daquele que porá fim a todas as coisas, e que continuará a ser, mesmo até a consumação dos tempos, aquele que ainda está por vir.3
- Disponível em: https://www.youtube.com/live/MKA4a6Us92w ↩︎
- Samuel Lee, The Events and the Times of the Visions of Daniel and St. John (United Kingdom, n.p., 1851), p. 45 ↩︎
- Samuel Lee, An Inquiry into the Nature, Progress and End of Prophecy (Cambridge: University Press), pp. 422-23 n 10 ↩︎







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