Título Original: A Sermon Preached at Hertford Assise; March 29, 16631
Por John Lightfoot
Introdução por Daniel P. Rodrigues
Quando se trata de Pretrismo Parcial, uma acusação frequente é a de que este seria uma inovação relativamente recente no desenvolvimento da Escatologia quando não, nos piores casos, uma tentativa elaborada às pressas por pós-milenistas para fugir da realidade das profecias, a fim de estabelecer o seu otimismo, tido como utópico.
Outros, por outro lado, propagam que o Preterismo Parcial seria um desvio da tradição e da ortdoxia da Reforma, por vezes atribuindo a sua “criação” ao romanismo. Devido a isso, todos os que professam a fé Reformada como tal deveriam não apenas rejeitá-lo, como também combatê-lo de forma veemente e vigorosa.
Com o objetivo de responder a tais alegações, traremos ao longo dos próximos dias materiais concernentes à interpretação escatológica de John Lightfoot (1602-1675), um dos divinos da assembleia de Westminster e renomado teólogo, linguista e erudito rabínico de sua época. Lightfoot, embora fosse um historicista com tendências hoje consideradas amilenistas em certas passagens, abordou muitos textos de caráter escatológico de forma bem próxima ao Preterismo Parcial, conforme definido atualmente.
O artigo abaixo apresenta um sermão seu, ministrado no Tribunal de Assize de Hertford, tratando da justificação pela fé, no qual ele apresenta uma exposição dos “Novos Céus e Nova Terra”, demonstrando uma abordagem que, embora não seja unânime ou majoritária, se aproxima da adotada por alguns proponentes do Preterismo Parcial moderno.
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“No entanto nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos Céus e uma nova Terra, nos quais habita a justiça.” 2 Pe 3:13
Ainda bem que podiam fazê-lo e tinham a garantia da promessa para tal; caso contrário, onde estaria a sua expectativa? Os versículos imediatamente anteriores falam apenas de devastação e ruína do Céu e da Terra, e se não houvesse mais nada além disso para ser aguardado, as suas esperanças e expectativas também teriam sido arruinadas; mas nós, diz o nosso Apóstolo, “aguardamos novos Céus e uma nova Terra.”
Mas de que natureza são eles, eis toda a questão. Suspeito que alguns homens interpretem estas palavras do Apóstolo quase tão distantes do seu verdadeiro sentido quanto a Terra está distante dos Céus: pois concebem a partir disto que, após a dissolução de todas as coisas, ainda haverá uma renovação do Céu e da Terra, e que eles voltarão a ser como antes quanto à sua substância e forma, mudando apenas a sua qualidade. A isto aplicam Rm 8:19, 20. “Porque a ardente expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus, etc.”
Querem forçar o nosso Apóstolo a dizer Sibolete, quer ele queira ou não: enquanto ele diz Chibolete com bastante clareza, num sentido muito diferente.
Para a descoberta do seu significado, tenham um pouco de paciência, enquanto vos esclareço esta observação, a qual poderá ser-vos útil na leitura de diversas passagens da Escritura.
Que a ruína e destruição de Jerusalém e da comunidade e economia2 judaicas são expostas na Escritura com expressões tais, como se se tratasse da destruição e dissolução de todo o mundo. Moisés inaugura este estilo em Dt 32:22, onde está a falar dessa vingança. “Porque um fogo se acendeu na minha ira e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com as suas colheitas, e abrasará os fundamentos dos montes.” Não pensaríeis que a dissolução de todas as coisas estaria a ser mencionada? Olhai para o contexto e descobrireis que não significa outra coisa senão a destruição daquela Nação. Jeremias vai ainda mais longe, no Cap. 4:23. “Olhei para a terra, e eis que era sem forma e vazia; e para os céus, e não tinham luz.” Pensaríeis que todo o mundo estaria a regressar novamente ao seu antigo caos. Acrescentai ainda mais: “Olhei para os montes, e eis que tremiam, e todos os outeiros se moviam ligeiramente.” “Olhei, e eis que não havia homem nenhum, e todas as aves dos céus haviam fugido.” Pensaríeis que todo o universo se estaria a dissolver, mas olhai apenas para o versículo 27 e ele não fala de outra coisa senão da dissolução daquele povo: “Porque assim disse o Senhor: Toda esta terra será assolada.”
O nosso Salvador eleva ainda mais o tom em Mt 24:29. “O sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. E então aparecerá o sinal do Filho do Homem, etc.” Quem não concluiria que estas expressões não podem significar no mundo outra coisa senão a dissolução final do Mundo e a vinda de Cristo para o Julgamento3? No entanto, olhai bem para o contexto e ele diz da forma mais simples que o significado é apenas a dissolução da Cidade e do Estado dos Judeus: e Cristo diz isto da forma mais clara no vers. 34, onde afirma que aquela geração presente não passaria sem que todas aquelas coisas se cumprissem.
O discípulo amado segue o estilo do seu Mestre sobre este mesmo assunto no sexto capítulo do seu Apocalipse, onde, depois de ter descrito os meios da destruição deste povo miserável sob a abertura de certos selos, através da Espada, Fome e Peste; ele chega finalmente aos vers. 12, 13 e 14 para descrever a sua própria dissolução final em termos muito semelhantes. “O Sol tornou-se negro como saco de cilício, e a Lua tornou-se como sangue, E as Estrelas do Céu caíram na Terra, e os Céus retiraram-se como um livro que se enrola, e todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares.” Alguém pensaria que a dissolução final de todo o mundo estaria a ser mencionada: mas olhai para o versículo 16 e encontrareis as mesmas palavras que o nosso Salvador aplica à destruição daquele povo em Lc 23:30. “Eles disseram aos montes: caí sobre nós, e escondei-nos, etc.” O significado do nosso Apóstolo Pedro não é outro na expressão que antecede o meu Texto, onde, quando fala dos Céus sendo dissolvidos pelo fogo, a Terra e as obras que nela há sendo queimadas, e os elementos derretendo-se com o calor ardente, ele não tenciona outra coisa senão a dissolução da sua [i.e., dos judeus] Igreja e economia por uma vingança ígnea, o consumo do seu Estado pela chama da indignação de Deus, e a ruína dos seus elementos de Religião pela fúria de Deus. Não os Elementos no sentido de Aristóteles, de Fogo, Ar, Terra e Água, mas os Elementos no sentido do seu irmão Paulo, a quem ele menciona logo a seguir ao meu Texto, “os carnais e miseráveis Elementos” dos seus ritos mosaicos e instituições tradicionais.
A esta altura já vedes claramente em que sentido “Os novos Céus e a nova Terra” devem ser tomados no Texto: mas para a compreensão mais completa e clara destas coisas, concedei-me ainda um pouco mais de paciência para vos mostrar que, tal como a destruição daquele velho Mundo do povo e da economia judaicos é expressa por tais palavras como se fosse a destruição de todo o universo; também os tempos que a antecedem de perto e os eventos simultâneos que acompanham essa destruição, são descritos por expressões igualmente adequadas. E isto observarei para vós sob quatro pontos:
I. Há muita menção dos últimos dias na Escritura, o que na maioria dos lugares não deve ser compreendido como os últimos dias do Mundo, como alguns os tomam, e assim se equivocam, mas como os últimos dias de Jerusalém e do Estado Judaico. E de facto as maiores misericórdias que foram prometidas àquele povo foram prometidas para ocorrer naqueles últimos dias, como em Is 2:2, Os 3:5, Jl 2:28, tal como ele é citado pelo nosso Apóstolo em At 2:17. Estas coisas não devem ser atribuídas aos últimos dias do Mundo, mas aos últimos dias daquela Cidade; como a própria citação de Pedro retirada de Joel deixa claro, mesmo que não houvesse mais provas. Agora, diz ele, cumpriu-se o que foi dito pelo Profeta Joel: “Nos últimos dias derramarei, etc.” Estes são os últimos dias ali intencionados, e agora a coisa alcançou o seu cumprimento. Pois quão impróprio é interpretá-lo num sentido como alguns fazem: “Isto é aquilo que Joel previu que aconteceria nos últimos dias do mundo, daqui a dois ou três mil anos”?
E assim, pelo contrário, foi previsto que os piores homens e tempos ocorreriam naqueles últimos dias de Jerusalém, porque não aproveitaram essas misericórdias, 1Tm 4:4 e 2Tm 3:1, e o nosso Apóstolo no terceiro versículo deste Capítulo; deixai que o Apóstolo João explique tudo, em 1Jo 2:18. “Filhinhos, é a última hora; e, como ouvistes que o anticristo vem, mesmo agora muitos anticristos se têm levantado, pelo que conhecemos que é a última hora.”
II. Num sentido semelhante devem ser compreendidas frases como estas, em 1Co 10:11. “Para quem os fins do Mundo são chegados.” Não os melhores tempos do Mundo, pois o Mundo já durou mil e seiscentos anos desde que Paulo disse isso; e por quanto tempo mais durará, quem sabe; mas sim o fim daquele velho Mundo do Estado Judaico, que então se apressava muito rápido. No mesmo sentido estão as palavras do nosso Apóstolo na sua primeira Epístola, Cap. 4:7. “O fim de todas as coisas está próximo”; Não o fim do Mundo, mas o daquela Cidade, Nação e economia: algo semelhante encontra-se em Tg 5:9. “Eis que o Juiz está à porta”; e diversas outras da mesma natureza.
III. A vingança de Cristo sobre aquele povo, naquela destruição final, é descrita e chamada de a sua vinda, a sua vinda no seu Reino, e nas nuvens, e com poder e grande glória. A sua vinda, em Jo 21:22. No seu Reino, em Mt 16:28. Em poder e glória, em Mt 24:30. E isto não é nenhuma figura, pois observai o vers. 34: “Esta geração não passará sem que todas estas coisas se cumpram.” Por conseguinte, o dia dessa vingança é chamado O Dia do Senhor.
IV. O estado da Igreja e do Evangelho após essa dissolução desse velho Mundo é por vezes chamado de “o Mundo vindouro”, Hb 2:5, por vezes de novos Céus e nova Terra, como no Texto; por vezes de tudo novo, como em 2Co 5:17. “As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
Assim, a esta altura já vedes claramente o significado do nosso Apóstolo neste lugar. Nos versículos anteriores ele fala da dissolução da Igreja e Estado Judaicos nos mesmos termos que a Escritura costuma utilizar para expressá-lo, como se fosse a dissolução de todo o Mundo: E nas palavras do Texto, da nova face e estado da Igreja e do Mundo, mediante a dissolução, quando um novo povo e uma nova economia tomaram lugar: “Nós, segundo a sua promessa,”
A promessa está em Is 65:17, “Porque, eis que eu crio novos Céus e uma nova Terra.” Onde, se olhardes para o contexto anterior, encontrareis justificado o sentido que coloco nestas palavras, e que estes novos Céus e nova Terra são criados após a rejeição e destruição dos Judeus. É uma opinião estranha aquela que vos tentaria persuadir de que as coisas mais gloriosas previstas pelos Profetas ocorrerão quando os Judeus forem chamados, chamamento esse que ainda é esperado: enquanto que estas coisas gloriosas são claramente indicadas como tendo lugar na rejeição dos Judeus. Eu poderia citar muitos lugares: não me alargarei sobre esse assunto aqui; este mesmo Capítulo diz o suficiente para justificar o que afirmo. No segundo versículo Deus queixa-se: “Estendi as minhas mãos todo o dia a um povo rebelde.” Isto o Apóstolo no capítulo 10 dos Romanos, e no final, aplica àquele povo. “Mas para Israel ele diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo desobediente e contradizente.”
O Profeta ao longo do Capítulo diz o que acontecerá àquele povo. No vers. 6: “Não me calarei, mas recompensarei, sim, recompensarei no seu seio, As vossas iniquidades, e juntamente as iniquidades de vossos pais (diz o Senhor), que queimaram incenso nos montes, e me blasfemaram nos outeiros, portanto, etc.” No vers. 12: “Eu vos numerarei para a espada, e todos vós vos encurvareis para a matança,” No vers. 13: “Eis que os meus servos comerão, mas vós padecereis fome, etc.” No vers. 15: “Deixareis o vosso nome para maldição aos meus escolhidos.” E depois segue-se a promessa que está relacionada no Texto: “Porque eis que crio novos Céus e uma nova Terra.”
Embora vós tenhais partido, nem todo o Mundo partirá convosco. Pois embora eu destrua o meu antigo povo, os antigos Céus e a Terra, da antiga economia, ainda assim providenciarei para mim um novo povo dos Gentios, quando os Judeus já não forem mais um povo: e quando esse velho Mundo for destruído, eu criarei novos Céus e uma nova Terra.
Outra passagem semelhante é aquela do nosso Salvador, em Mt 24:31, onde, quando ele tinha descrito a ruína da Nação Judaica nos termos de que falámos antes; e poder-se-ia questionar, o que acontecerá então a uma Igreja, e onde ela estará? “O Filho do homem”, diz ele, “enviará os seus Anjos”, ou Ministros, “com o som da trombeta” do Evangelho, “e eles ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma extremidade do Céu à outra”, por entre todas as Nações.
Assim, Pedro havia lido esta grande promessa em Isaías, o Profeta do Evangelho; assim ele a ouvira da boca do grande Profeta, o seu sagrado Mestre; e, portanto, não é de admirar se, ao ser confirmada pela boca de duas tais testemunhas, ele indubitavelmente aguardasse por novos Céus e uma nova Terra de acordo com tal promessa. Mas o que se quer dizer por justiça neste lugar?
- Não a justiça ou retidão primitiva ou distributiva de Deus: pois essa sempre existiu, em Gn 18:25, “O Juiz de toda a Terra” fez justiça desde que o Mundo existe: No velho Mundo, em todo o Mundo, e o mesmo para o presente, ontem, hoje e para sempre.
- Não que os homens fossem mais justos no final do Mundo do que antes, como alguns sonham com tais coisas gloriosas ainda por vir: pois não há tal promessa em toda a Escritura. É verdade que a promessa de tais coisas gloriosas se aplicava aos últimos dias de Jerusalém; mas onde está qualquer promessa de tais coisas nos últimos dias do Mundo?4
- Nem significa o estado glorificado, pois onde encontrais a justiça aplicada a esse estado? Normalmente é aplicada ao estado dos crentes aqui.
- Por conseguinte, significa a justificação dos pecadores, ou essa justiça pela qual eles são justificados.
A justiça de Deus, que é testemunhada pela Lei e pelos Profetas: A saber, a justiça de Deus “que é pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem”, como o Apóstolo de forma tão divina a expõe. Esta é a justiça de que se fala tão gloriosamente em todas as Escrituras, em Dn 9:24. “Para trazer a justiça eterna”; Is 56:1. “A minha justiça está prestes a manifestar-se”; ao que isto se coaduna, Rm 1:17. “No Evangelho, a justiça de Deus é revelada de fé em fé.” Porquê? Não fora a justiça de Deus revelada em todos os tempos anteriores? Não fora a sua justiça revelada na Lei? Sim, a sua justiça condenatória, mas a sua justiça justificadora no Evangelho.
Este é o significado do Apóstolo aqui: Que, assim como Deus prometera criar novos Céus e uma nova Terra, uma nova Igreja e um novo Povo e economia entre os Gentios, quando a antiga ordem judaica fosse destruída: assim também neste Mundo recém-criado, a justiça justificadora habitaria da forma mais evidente e apareceria da forma mais gloriosa, quando pessoas tão abomináveis como os Gentios tinham sido fossem justificadas. A justiça justificadora mostrara-se no Mundo em todas as gerações, desde Adão e do justo Abel, sobre todos os que creram; mas sobre os Gentios crentes de forma muito mais especial, tanto por causa da multidão que foi justificada, como por serem homens que antes tinham estado tão distantes da justiça.
Podeis ver uma imagem daquilo que se pretende neste Texto, no capítulo quatro do Apocalipse, onde há um esquema deste novo Mundo de que o nosso Apóstolo fala a partir da promessa do Profeta. Há uma cena configurada com Cristo sentado no meio da Igreja do Evangelho, moldada segundo a forma da habitação de Deus no meio do povo de Israel no seu Tabernáculo, e sobre o propiciatório. Diz-se que o seu trono está no Céu, no segundo versículo, mas isso significa na sua Igreja: pois assim o Céu é compreendido na maioria das passagens no Apocalipse: E observai que diante do seu Trono no Céu há um Mar de vidro, vers. 6, tal como o Mar de fundição estava diante do Templo: há um Altar diante do Trono e oferta de Incenso, Ap 8:3, tal como havia no Templo: aliás, encontra-se o próprio Templo cheio de fumaça, Ap 15:8, como estiveram o Tabernáculo e o Templo na sua Dedicação.
À volta do seu Trono estavam, em primeiro lugar, quatro Seres Viventes nos quatro lados do mesmo, tal como os quatro esquadrões de Sacerdotes e Levitas se acamparam nos quatro lados do Tabernáculo, entre Deus e o povo. Por fora deles sentavam-se vinte e quatro Anciãos, os representantes de toda a Igreja, tal como os esquadrões do povo acampavam de um dos lados do esquadrão dos Sacerdotes e Levitas. E diz-se que estes vinte e quatro Anciãos estavam vestidos de branco; o que descreve precisamente as coisas de que estamos a falar; pois assim o próprio Espírito Santo o explica, no Cap. 19, vers. 8. “O linho fino é a justiça dos Santos.” E no Cap. 7:14. “Lavaram as suas vestes e branquearam-nas no sangue do Cordeiro.” Estranha lavagem, branqueá-los no sangue? Pensaríeis que isso os faria de outra cor: mas a brancura de que estamos a falar é o branco puro da Justificação, e nada pode purificar até a essa cor senão o sangue de Cristo.
E aqui permiti-me também implorar um pouco mais da vossa paciência para falar de outro Texto da Escritura, que trata plenamente do assunto em que nos encontramos, mas que não é traduzido tão claramente para o seu devido propósito, ao ponto de ter produzido não pouca controvérsia. E referem-se a estas palavras em Rm 4:11. “Abraão recebeu o sinal da circuncisão, um selo da justiça da fé que teve quando ainda estava incircunciso.” Geralmente todas as Traduções seguem a mesma linha: enquanto que estas palavras “que teve quando ainda estava” não estão de todo no Original, como vós, que não sabeis ler o Original, podeis ver pelo facto de estarem escritas com um tipo de letra diferente. O Grego tem assim: Σφραγῖδα τῆς δικαιοσύνης τῆς πίστεως τῆς ἐν τῇ ἀκροβυστίᾳ. que pode ser literalmente traduzido assim: “Ele recebeu o sinal da circuncisão, um selo da justiça da fé na incircuncisão”: E não para ser compreendido como a justiça da fé que Abraão possuía na sua incircuncisão: embora seja verdade que ele a possuía, mas sim um selo da justiça pela fé que viria a estar na incircuncisão, ou seja, nos Gentios crentes. E que este sentido é o mais concordante com a intenção do Apóstolo naquele lugar, não precisa de mais provas do que a observação atenta da natureza do seu discurso a partir daquelas palavras em diante. E que está mais de acordo com o propósito da instituição da circuncisão, não requer mais provas do que a observação séria da história da sua instituição.
Isso podeis encontrar em Gn 17, onde esta promessa é dada a Abraão: “Tu serás o pai de muitas Nações.” Em que sentido será o pai de muitas Nações, o Apóstolo esclarece nas palavras que se seguem imediatamente àquelas em que nos debruçamos. “Para que fosse o pai de todos os que creem, estando eles não circuncidados, a fim de que a justiça lhes seja imputada também.” De modo que esta foi a Aliança que Deus fez ali com Abraão, de que a incircuncisão creria e se tornariam filhos de Abraão, abraçando a sua fé.
Esta Aliança e promessa Deus confirma com um selo duplo. 1. Com a mudança do seu nome de Abrão para Abraão: de אברם um pai elevado para אברהם o pai de uma grande multidão: e 2. Com o selo da Circuncisão; Um selo da justiça pela fé que deveria estar na incircuncisão, ou nos Gentios que viriam a crer.
Ponderai bem as palavras e o contexto, e a história da instituição da Circuncisão, e descobrireis que este é o principal objetivo e fim da mesma: Não um selo da justiça pela fé que Abraão possuía estando incircunciso, mas da justiça pela fé que a incircuncisão passaria a ter, quando eles viessem a crer. E isto diz exatamente a mesma coisa que o Texto, que quando Deus criasse os novos Céus e a nova Terra da Igreja Gentílica, quando os Judeus fossem rejeitados, essa justiça ou justificação pela fé habitaria e brilharia nela.
Alonguei-me um pouco na explicação das palavras, mas a necessidade do assunto pode servir de minha desculpa. E agora, estando elas assim explicadas, oferecem-nos três temas muito nobres para discurso.
- Aqui há a menção de um novo Mundo.
- Da promessa de Deus.
- De Justificação ou Justiça.
E em qual destes me vou fixar? Qualquer um dos três consumiria o tempo que nos é concedido: por isso colocarei a minha mão direita sobre a cabeça de Efraim, que é o mais novo.
A palavra justiça, como vedes, nasceu em último lugar no Texto, e ainda assim, de facto, o direito de primogenitura é-lhe devido. É o principal alvo que o nosso Apóstolo tem em vista, e os outros dois são apenas apêndices dele nesse seu objetivo. Segui o olhar dele com o vosso e vede onde ele se fixa. justiça é aquilo que ele busca, os novos Céus e a nova Terra são o estado e o lugar onde ele a aguarda; e a promessa é a perspetiva através da qual ele a contemplou.
Por conseguinte, irei focar-me nisso como o tema principal do Texto, e a partir do olhar do Apóstolo tão concentrado nisto; Observai,
Quão desejável é a justiça para ser procurada, visto que expressa justificação.
Parece-me que Pedro fala aqui a respeito desta justiça de forma muito semelhante ao tom que o Salmista usa em relação a Deus, no Sl 73:25. “Não há nada no novo Céu senão Tu, e nada na nova Terra que eu deseje além de Ti.”5 O seu irmão Paulo tem a mesma opinião e cântico, em Fp 3:8, 9. “Considero todas as coisas como esterco, para que possa ganhar a Cristo. E seja achado nele, não tendo a minha própria justiça que vem da Lei, mas a justiça que vem de Deus pela fé.” Oferecei-lhe como Satanás outrora fez ao nosso Salvador, e tentai-o com hæc omnia tibi dabo [tudo isto te darei]: ‘Paulo, escolhe de entre todo o Mundo o que queres ter: honras, riquezas, prazeres, lucros, escolhe o que quiseres e terás’. ‘Senhor, permite que eu tenha a justiça que vem de Deus pela fé. Todas as coisas no Mundo não passam de esterco em comparação a ela.’ O seu grande Mestre o ensinara, e ensina a todos nós que esta é a coisa tão desejável e a ser ansiada, em Mt 5:6. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.”
Como irei eu falar sobre este assunto? Um tema adequado para ser discorrido pela Língua de um Anjo, ou pela Língua de um Santo na glória. Se um Lázaro viesse do Céu para pregar na Terra, como o homem rico o quis naquela parábola, como é que ele, com base na sua própria experiência da excelência dela, não magnificaria esta justiça? Aliás, se um rico6 pudesse regressar do Inferno para pregar aos seus irmãos e avisá-los para não irem parar àquele lugar de tormento, ele dir-lhes-ia que todas as coisas no mundo são apenas esterco, e que há apenas unum necessarium [uma coisa necessária]: obter aquela justiça que vem de Deus pela fé.
‘Lázaro, como vieste tu para o Céu?’ ‘Porque eu fui justificado, em Rm 8:30: Aos que justificou, a esses também glorificou.’ ‘Rico, como vieste tu a ser condenado?’ ‘Porque eu não fui justificado.’
Não entrarei em nenhuma das várias e minuciosas disputas sobre a Justificação, apenas direi algo sobre a sua excelência incomparável, para que, se for possível, eu possa aquecer um pouco os vossos corações no desejo e anseio por ela, que é tão desejável e deve ser tão almejada.
E farei isso considerando a sua natureza e os seus efeitos, e não preciso procurar mais longe: é como a Arca da Aliança, “revestida de ouro por dentro e por fora”. É toda gloriosa no seu interior na sua própria natureza, e toda gloriosa no exterior nos seus frutos e efeitos.
Em primeiro lugar, a natureza da justificação: Como poderei eu defini-la ou descrevê-la? Da mesma forma que o Apóstolo define a Fé, em Hb 11:1. “A fé é a substância das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem”; não a definindo com tanta exatidão para expor toda a sua natureza, mas conforme melhor se aplica ao seu discurso atual: Assim eu a respeito disto, para falar dela de acordo com o tema proposto, como sendo desejável e digna de ser ansiada, deixai-me dizer: A Justificação é um homem ser feito participante de toda a justiça de Cristo; e se alguma coisa é digna de ser ansiada, decerto é esta: Ser feito participante de toda a justiça de Cristo.
Labão falou de forma arrogante quando disse: “Todas estas coisas que vês são minhas, estes filhos são meus filhos, etc.”, em Gn 31:43. Mas quão sublime e glorioso é aquilo que pode ser dito sobre uma pessoa justificada? Tudo aquilo que ouves a respeito de Cristo é teu, a sua vida é tua, a sua morte é tua, a sua obediência, mérito, espírito justo, tudo é teu. Os Judeus falam muito quando afirmam que todos os seiscentos e treze preceitos estão contidos em Justus ex fide vivet, “O justo viverá pela fé”. Mas eles estão longe de interpretar corretamente a questão, quando procuram a justificação pelas suas próprias obras: e soa como um monstro de Doutrina aos seus ouvidos que os homens devam ser justificados pela justiça de outro e pela obediência de outro.
Mas o Evangelho, como nos diz o Apóstolo, Revela esse grande mistério; “Porque nele a justiça de Deus é revelada de fé em fé”, em Rm 1:17. Aqui surgem duas dúvidas. 1. A Lei não revelou a justiça de Deus? Como é que, então, se atribui ao Evangelho o facto de a revelar? E 2. Como é que ele a revela de fé em fé?
É verdade que a Lei revelou a justiça condenatória de Deus, mas o Evangelho revela a sua justiça justificadora; a justiça de Deus numa excelência mais singular. Gloriosa é a justiça de Deus em todas as suas atuações, a sua justiça condenatória, a sua justiça recompensadora, mas de forma mais singularmente gloriosa a sua justiça justificadora; e esta é, de forma muito especial, exaltada na Escritura como a justiça de Deus, da mais seleta eminência.
E, em segundo lugar, esta justiça é revelada no Evangelho de fé em fé. Como assim? Não o posso entender apenas como passando de um grau de fé para outro, mas sim de um tipo de fé para outro. Os Judeus que esperavam ser justificados pelas suas próprias obras, ainda assim tinham uma fé em Deus, acreditavam nele, esperavam o bem que d’Ele vinha, mas não sabiam o que era a fé em Deus por meio de Cristo; eles esperavam a justificação da parte de Deus e tinham uma fé ou crença de que a iriam alcançar; mas eram totalmente alheios à justificação por meio da fé em Cristo; logo, isto o Evangelho revela como sendo o grande mistério da salvação. A justiça de Deus justificando um pecador, e isto passando de uma crença imediata em Deus, para crer nele por intermédio de Cristo Jesus, e passando de esperar a justificação através da nossa própria justiça, para esperar a justificação através da justiça de Cristo.
O Apóstolo em Rm 5, a partir do vers. 12 em diante, confirma isto que proponho, que a justificação é pela imputação da justiça de Cristo; e a comparação que ele aí utiliza esclarece a questão plenamente. Para expor esse grande ponto da justificação pela justiça de Cristo, ele estabelece um paralelo a partir da imputação do pecado de Adão, e podeis ver como do início ao fim ele contrapõe um ao outro: falemos um pouco sobre esse paralelo.
1. A questão da imputação no seu discurso ali e, na verdade, na sua própria essência, não argumenta a favor de alguma relação de descendência, se assim a puder chamar? A imputação baseia-se na relação de descendência.
Ele fala do pecado de Adão imputado: a quem? Àqueles que têm relação de descendência com ele, toda a sua posteridade. O pecado do Anjo não lhe é imputado, nem o dele aos Anjos, nem o de Anjos a Anjos, mas o de Adão a toda a sua posteridade, por causa da relação deles com ele. O pecado de violar o mandamento que lhe fora dado é imputado a toda a sua posteridade, por ser a sua posteridade: pois todos eles estavam nele, e incluídos na Aliança, porque esta não fora feita com Adão como um único homem, mas com toda a natureza humana incluída nele: e assim a sua culpa desceu sobre eles com base nessa relação.
Da mesma forma, a justiça de Cristo é imputada: a quem? Àqueles que estão relacionados a ele, à sua descendência, ou seja, àqueles que nascem dele. A comparação do Apóstolo tem de decorrer em paralelo; o pecado de Adão é imputado à sua descendência, e a justiça de Cristo à sua.
2. Toda a descendência de Adão se torna igualmente pecadora pelo seu pecado, assim como toda a descendência de Cristo é justificada da mesma forma pela Sua obediência.
O pecado original não tem magis & minus [mais e menos], mas todos são originalmente pecadores de igual modo; embora nem todos sejam pecadores na prática da mesma forma. Da mesma forma, a justificação não tem magis & minus [mais e menos], mas todos os que são justificados o são de igual modo. A Santificação tem os seus graus. A justiça e santidade de Adão eram igualmente perfeitas, mas a justiça e santidade dos Santos não o são: pois são justificados por uma justiça infinita, mas não são santificados por uma santidade infinita.
3. Toda a justiça de Cristo lhe é imputada. Não cabe a um Santo uma parte, a outro outra, mas a cada um pertence tudo. Como anima tota in toto & tota in qualibet parte [a alma inteira no todo e inteira em qualquer parte]. Assim, toda a justiça de Cristo é para todos os crentes, e toda ela para cada um. Da mesma forma que um milhão de homens estão debaixo do Sol, e um não partilha de uma pequena parte da sua luz e raios, enquanto outro de outra, mas todos partilham de tudo. Assim, aqui, como a primeira exaltação da desejabilidade da justificação, ela faz-nos participantes da justiça de Cristo: Oh, que tesouro é este!
- Fonte: John Lightfoot, The Works of the Reverend and Learned John Lightfoot, 2 vols. (London: W. R. for Robert Scot, Thomas Basset, and Richard Chiswell, 1684), 2:1073-1078. Disponível em: . ↩︎
- Ou dispensação. ↩︎
- I.e., o Juízo Final ↩︎
- As colocações de Lightfoot aqui demonstram, em seu pensamento, uma perspectiva ligeiramente semelhante à presente no Amilenismo moderno quanto ao desenvolvimento da história, porém que não se segue logicamente das premissas que adota. Se, verdadeiramente, os Novos Céus e Nova Terra se iniciam e se manifestam mediante à expansão da justiça mediante a fé para os gentios, na nova dispensação inaugurada, concluir-se-ia que, antes da Consumação, verdadeiramente teríamos “homens […] mais justos no final do Mundo do que antes.” ↩︎
- Paráfrase do autor ↩︎
- Orig. dives, empegando um cognato do latim ↩︎







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