Era Calvino um Teonomista?

Era Calvino um Teonomista?

Por Gary North1
Trad. por Kalebe E. C. Barbosa
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Este ensaio aparece como meu “Prefácio do Editor” de João Calvino, The Covenant Enforced [O Pacto Aplicado], editado por James B. Jordan (ICE, 1990).3 Eu tinha vários objetivos ao publicar esta coleção de sermões de João Calvino sobre Deuteronômio. O primeiro foi fornecer evidências de fontes primárias para responder à pergunta: “Calvino era um teonomista?” Estes sermões revelam claramente que a resposta é sim. Em segundo lugar, estou interessado na teoria social de Calvino. Esta questão me interessa tanto como historiador quanto como teórico social. Haveria algo único na teoria social de Calvino que o separasse tanto dos teóricos medievais que o precederam quanto dos luteranos que foram seus contemporâneos? Terceiro, e menos relevante para as questões sociais e históricas mais amplas, eu queria uma resposta para a questão: a teologia, tal como é ensinada nos seminários calvinistas contemporâneos, é consistentemente pactual e calvinista, ou ela desviou-se para outros caminhos? Digo menos relevante porque o calvinismo contemporâneo é hoje um redemoinho institucional menor na ampla corrente do evangelicalismo, um movimento identificável pela condição encolhida dos seus seminários e também das denominações que ainda professam e aplicam os credos reformados históricos.

Noto o título do livro, O Pacto Aplicado. Onde o pacto é aplicado – o pacto pregado por João Calvino? A resposta é clara: quase em lugar nenhum. A relutância sistemática e autoconsciente dos calvinistas em pregar e aplicar institucionalmente a teologia do pacto, começando na década de 16604 e aumentando desde então,5 está no cerne da crise espiritual do Ocidente.

Calvino e Teonomia

Como Calvino escreveu o manual teológico mais eficaz na história da igreja, As Institutas da Religião Cristã, os leitores tenderam a ignorar o enorme compêndio de escritos que constituem a obra da sua vida. Os 22 volumes de comentários bíblicos publicados pela Baker Book House apenas tocam a superfície de sua produção total. A maioria de seus escritos ainda não foi traduzida do latim. Seus mais de 200 sermões sobre Deuteronômio apareceram em inglês no final do século XVI e foram rapidamente esquecidos. No entanto, é aqui, nos seus sermões sobre Deuteronômio, que encontramos o cerne da teologia do pacto de Calvino. É em Deuteronômio que o pacto de Deus é apresentado de forma mais abrangente.6

O Que é Teonomia?

A questão, “Era Calvino um teonomista?”, obviamente exige uma definição de teonomia. A teonomia, como Greg Bahnsen usa o termo,7 é uma visão da Bíblia que defende a validade contínua da lei revelada de Deus em todas as áreas da vida. Bahnsen argumenta que, a menos que uma lei específica do Antigo Testamento tenha sido revogada pelo Novo Testamento, seja por revelação específica ou por causa da aplicação de um princípio do Novo Testamento, a sua autoridade ainda é moral e/ou judicialmente vinculativa. “A posição metodológica, então, é que presumimos nossa obrigação de obedecer a qualquer mandamento do Antigo Testamento, a menos que o Novo Testamento indique o contrário. Devemos presumir continuidade com o Antigo Testamento em vez de descontinuidade. Isso não implica dizer que não há mudanças do Antigo para o Novo Testamento. Certa mente há – e mudanças importantes. Contudo, a palavra de Deus deve ser o padrão que define precisamente quais são essas mudanças para nós; não podemos nos arrogar o direito de presumir tais mudanças nem de impô-las sobre o Novo Testamento.”8

Esta posição produziu uma certa confusão exegética. “Existem”, escreve Bahnsen, “descontinuidades culturais entre a instrução moral bíblica e a nossa sociedade moderna. Este fato não implica que o ensino ético das Escrituras seja invalidado para nós; simplesmente exige sensibilidade hermenêutica.”9 A “sensibilidade hermenêutica” permite um certo grau de latitude – quanto, ninguém pode dizer antecipadamente. Mas todo sistema intelectual e judicial acaba adotando uma qualificação semelhante; a mente humana não é digital10 nem não-caída. No entanto, os teonomistas estão em desvantagem comparativa em termos da criação de um sistema apologético sistemático, uma vez que afirmam que a Bíblia é relevante para todas as áreas da vida, não apenas em grandes e brilhantes frases de efeito, mas de forma específica. Isso cria uma apologética complexa, detalhada e difícil.11

Em geral, porém, a precisão da definição de teonomia fornecida por Bahnsen levou a uma extensa produção de trabalhos teológicos que a aplicam a toda uma série de questões bíblico-teológicas, incluindo a teoria social.

João Calvino, Teonomista

Já dei minha resposta de uma palavra: sim. Agora preciso provar isso. Os seguintes trechos de sermões reimpressos em The Covenant Enforced deixam clara sua posição. Começo com a sua opinião a favor da validade contínua do Decálogo (dez mandamentos), as palavras da lei. Ele cita Deuteronômio 27:26: “Maldito seja aquele que não confirmar todas as palavras desta lei, para cumpri-las; e todo o povo dirá: Amém.” Seus comentários não indicam qualquer dúvida de sua parte a respeito das reivindicações abrangentes da lei de Deus:

Por esta razão, portanto, é dito: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei”. Ele não está falando aqui de um ou dois mandamentos, ou de alguma parte deles, mas de toda a lei, de cada parte integrante dela, sem exceção. E, de fato, devemos pensar em como São Tiago diz que Aquele que proibiu roubar, também proibiu cometer adultério; e que Aquele que proibiu o assassinato também proibiu o falso testemunho. Não devemos despedaçar a justiça de Deus. Seja qual for a maneira que transgredimos, violamos a lei de Deus e desprezamos Sua majestade. Mas Ele será reconhecido em Sua lei em todos os pontos, e não apenas em parte, como já lhes disse antes. [The Covenant Enforced, p. 64.]

Mas aqui está uma sentença terrível, e que deveria arrepiar os cabelos de nossas cabeças: “Maldito aquele que não cumprir todas as palavras desta lei.” Quem diz isso? É o próprio Deus. É, então, uma sentença definitiva, que não admite recurso além de si mesma. Deus fará com que todos os homens confessem isso, sim, Ele fará com que cada homem confesse com sua própria boca. O que então nos resta fazer? Onde está a esperança da salvação? A partir disso vemos que se tivéssemos apenas os dez mandamentos da lei estaríamos totalmente desfeitos e pereceríamos. É necessário que recorramos à Sua misericórdia, que supera a Sua justiça, como diz São Tiago (Tg 2:13). A bondade de Deus, então, deve ser manifestada para conosco para nos livrar da condenação que todos nós experimentaríamos se esta maldição permanecesse e não houvesse graça para superá-la. [The Covenant Enforced, pp. 66-67.]

Ele levou a sério os detalhes das leis casuísticas? Sim. Ele foi até Levítico 18 e 20 em busca da definição de incesto. Ele escreve que “esses graus de consanguinidade devem ser observados. Pois sem tal ordem, o que seria das coisas? Como diferiríamos dos touros e burros?”12

Esta comparação entre uma besta bruta e um homem sem a lei de Deus é familiar na teologia ética de Calvino:

Como somos feitos povo de Deus, exceto sendo Sua Igreja e tendo o uso de Seus sacramentos, e isso é o mesmo que se Ele aparecesse entre nós? Pois não podemos esperar que Deus desça do céu em Sua própria pessoa, ou envie Seus anjos para nós. Pelo contrário, a verdadeira marca pela qual Ele será conhecido por estar presente entre nós é a pregação de Sua Palavra puramente para nós, pois não pode haver dúvida de que então Ele governará em nosso meio. Portanto, que isto nos beneficie, que saibamos que nosso Senhor nos recebe para si mesmo e deseja que sejamos de sua própria casa. Vendo isso assim, esforcemo-nos para obedecê-Lo em toda a nossa vida e para guardar Seus mandamentos. Não vamos vagar como bestas brutas, como fazem os miseráveis incrédulos, porque eles nunca souberam o que era ser da casa de Deus. [The Covenant Enforced, p. 33.]

Calvino acreditava na primazia da obediência. É por isso que sua teologia é intensamente ética.

E podemos ver que a promessa não está vazia quando continuamos lendo: “Guarda o mandamento que hoje te coloquei”, diz Moisés, “para que não te desvies nem para a esquerda nem para a direita, para ir atrás de deuses estranhos e adorá-los”. Vemos como Deus nos lembra continuamente da obediência à Sua Palavra para que O sirvamos, embora não naquela hipocrisia a que estamos tão inclinados. Lembremo-nos, portanto, desta lição: que, para adorar sinceramente o nosso Deus, devemos sempre começar por atentar à Sua voz e dar ouvidos ao que Ele nos ordena. Pois se cada um seguir o seu próprio caminho, vagaremos. Podemos muito bem correr, mas nunca estaremos nem um pouco mais perto do caminho certo, mas sim mais longe dele. [The Covenant Enforced, p. 128.]

A lei bíblica estabeleceu a base da ética de Calvino. É por isso que ele deveria ser classificado como um teonomista do século XVI. Mas foi mais do que simplesmente o seu compromisso com a exigência de obedecer à lei de Deus que fez dele um teonomista. Ele também defendia uma teoria social cuja abordagem era essencialmente teonomista.

A Teoria Social de Calvino

Qual é a natureza da mudança social? Esta é a questão da teoria social moderna.13 Os estudiosos humanistas geralmente se concentram no dualismo percebido entre mente e matéria: ideias versus história como a base primária do desenvolvimento social. A Bíblia, por outro lado, concentra-se na questão da ética: o cumprimento do pacto versus a violação do pacto. Isto levanta a questão-chave na teoria social bíblica: as sanções de Deus na história.14

A visão de Calvino da história era direta: Deus traz Suas sanções – bênçãos e maldições – no meio da história em termos da obediência de cada homem à Sua lei. Cada homem colhe o que planta na história. Calvino não qualificou esta afirmação de forma significativa e repetiu-a inúmeras vezes:

Pois se qualquer um de nós calcular o que sofreu todos os dias de sua vida e depois examinar o estado de Davi ou de Abraão, sem dúvida descobrirá que está em melhor estado do que aqueles santos pais. Pois eles, como diz o apóstolo (Hb 11:13), só viam coisas distantes, coisas que estão bem diante dos nossos olhos. Deus prometeu ser seu Salvador; Ele os escolheu para serem, por assim dizer, de Sua família; mas enquanto isso, onde estava Aquele que seria o Redentor prometido? Onde estava a doutrina que nos é tão clara no evangelho a respeito da ressurreição? Eles sabiam o mesmo de longe, mas agora nos é declarado no evangelho de tal maneira que podemos realmente dizer, como nosso Senhor Jesus Cristo nos dá a entender, que bem-aventurados os ouvidos que ouvem as coisas que nos são contadas sobre Ele, e os olhos que veem as coisas que vemos, pois os santos reis e profetas ansiavam pelo mesmo, e não conseguiram obtê-lo (Mateus 13:16s.).

Temos, portanto, um estado muito mais excelente do que aqueles que viveram sob a lei. Esta é a diferença da qual falo, que precisava ser suprida por Deus por causa da imperfeição [falta de completude] que havia na doutrina relativa à revelação da vida celestial, que os pais só conheciam por sinais externos, embora fossem queridos por Deus. Agora que Jesus Cristo desceu até nós e nos mostrou como devemos segui-Lo, sofrendo muitas aflições, como nos é dito (Mateus 16:24; Romanos 8:29), suportando pobreza e reprovação e coisas semelhantes, e para ser breve, que nossa vida deve ser como se fosse uma espécie de morte; visto que sabemos tudo isso, e o poder infinito de Deus é expresso em Sua ressurreição de Jesus Cristo da morte e em Sua exaltação à glória do céu, não deveríamos tirar disso uma boa coragem? Isso não deveria amenizar todas as aflições que podemos sofrer? Não temos motivos para nos alegrarmos em meio às nossas tristezas?

Observemos, então, que se os patriarcas foram mais abençoados por Deus do que nós, no que diz respeito à vida presente, não deveríamos nos surpreender com isso. Porque a razão para isso é aparente. Mas não importa como as coisas vão, ainda assim esta afirmação de São Paulo é sempre verificada: que o temor de Deus é uma promessa não apenas para a vida futura, mas também para a vida presente (1 Timóteo 4:8). Caminhemos, portanto, em obediência a Deus, e então poderemos ter certeza de que Ele se mostrará um Pai para nós, sim, até mesmo na manutenção de nossos corpos, pelo menos no que diz respeito a manter-nos e preservar-nos em paz, livrando-nos de todos os males e provendo as nossas necessidades. Deus, digo eu, nos fará sentir Sua bênção em todas essas coisas, para que andemos em Seu temor. [The Covenant Enforced, pp. 100-1.]


Bênçãos nas Pequenas Coisas

Calvino não estava falando apenas dos grandes movimentos abrangentes na história da humanidade. Ele estava falando das pequenas coisas da vida de cada homem. Existe ordem na vida de um homem porque existe uma relação coerente e previsível entre obediência e bênçãos. Deus não limita Suas bênçãos pactuais à vida após a morte:

Estejamos, portanto, persuadidos de que nossas vidas serão sempre amaldiçoadas, a menos que retornemos a este ponto para onde Moisés nos leva, ou seja, para ouvir a voz de nosso Deus, para sermos assim movidos e continuamente confirmados no fato de que Ele se importa com a nossa salvação, e não apenas com a salvação eterna de nossas pessoas, mas também com a manutenção de nosso estado nesta vida terrena, para nos fazer provar atualmente de Seu amor e bondade, de tal maneira que possa nos contentar e nos satisfazer, esperando até que possamos nos fartar disso e contemplar face a face aquilo que agora somos restritos a olhar como se fosse por espelho, de forma obscura (1 Coríntios 13:12). Isso é mais uma coisa que devemos lembrar deste texto, onde é dito que seremos abençoados se dermos ouvidos à voz do Senhor nosso Deus.

Isso deve ser aplicado a todas as partes de nossas vidas. Por exemplo, quando um homem deseja prosperar em sua própria pessoa – isto é, ele deseja empregar-se no serviço de Deus e obter alguma graça para que não seja inútil nesta vida, mas para que Deus seja honrado por ele – que ele pense assim consigo mesmo: “Senhor, eu sou Teu. Dispõe de mim como Tu queres. Aqui estou, pronto para Te obedecer.” Este é o ponto por onde devemos começar se desejamos que Deus nos guie e crie em nós a disposição para servi-Lo, para que Suas bênçãos possam aparecer e desçam sobre nós e sobre nossas pessoas. Assim é em relação a casa de cada homem. [The Covenant Enforced, p. 107.]

O mesmo se aplica ao gado, à comida e a todas as outras coisas. Pois vemos aqui [neste texto] que nada é esquecido. E Deus pretendia fazer-nos perceber Sua infinita bondade, visto que Ele declara que cuidará de nossos menores assuntos, nos quais um de nossos iguais relutaria em se intrometer. Se tivermos um amigo, deveríamos sentir muita relutância, de fato, e vergonha de usar sua ajuda, a menos que fosse em um assunto de grande importância. Mas vemos aqui que Deus entra em nossos currais e nos estábulos de nosso gado e bois, e Ele entra em nossos campos, e Ele cuida de todas as outras coisas também. Já que O vemos humilhar-se a tal ponto, não deveríamos nos maravilhar em honrá-Lo e magnificar Sua generosidade? [The Covenant Enforced, p. 108.]

Uma Promessa Pactual

Deus prometeu aos israelitas que eles seriam abençoados, para confirmar Seu pacto com seus pais. “Mas te lembrarás do SENHOR teu Deus; porque é ele que te dá o poder para obteres riqueza, para que ele possa estabelecer o seu pacto que ele jurou aos teus pais, como é neste dia” (Deut. 8:18). Calvino ecoou esta visão: As bênçãos de Deus na história apontam para Sua fidelidade na eternidade:

Concluamos, então, que quando Deus diz que Ele nos abençoará no fruto da terra, e que Ele nos abençoará no fruto do nosso gado, é um argumento mais certo de que Ele não esquecerá o principal. Essas coisas são humildes e de pouca importância, e muitas vezes os homens as desprezam, e ainda assim vemos que Deus cuida delas apesar de tudo. Sendo assim, acaso Ele se esquecerá de nossas almas, que Ele criou à Sua própria imagem, as quais Ele também redimiu tão profundamente com o sangue sagrado de seu Filho? Certamente não. Em primeiro lugar, portanto, reconheçamos o favor de Deus para conosco, ao humilhar-se a ponto de dirigir e governar tudo o que pertence à nossa vida e ao nosso sustento. E a partir daí elevemo-nos mais alto e entendamos que Ele não nos falhará nas coisas que ultrapassam a vida presente, mas sim que nas coisas principais que pertencem à nossa vida, na verdade, mesmo neste mundo, Deus estenderá a Sua mão para nos fornecer sempre todas as coisas que são necessárias. [The Covenant Enforced, pp. 108-9.]

Um Testemunho Visível Para Nossos Inimigos

Estas bênçãos de Deus serão visíveis aos inimigos pagãos de Deus. Ele cita Deuteronômio 28:10: “E todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do SENHOR; e terão medo de ti.” A questão aqui é: essas bênçãos não são meramente internas, bênçãos “apenas espirituais”; são bênçãos públicas. São bênçãos que diferenciam os cumpridores do pacto dos violadores do pacto, não apenas na eternidade, mas no tempo e na terra.

Agora Ele diz, além disso, que outras pessoas verão que somos chamados pelo nome de Deus e nos temerão (v. 10). Não é suficiente que Deus prometa nos fazer sentir que estamos seguros sob Sua guarda; mas Ele também diz que até mesmo os pagãos, nossos inimigos mortais e os desprezadores de Sua majestade, serão levados a saber o mesmo. Ora, é certo que os infiéis não conhecem o braço de Deus da maneira que deveria ser conhecido por nós. Eles estão muito aquém disso. Pois embora vejam, eles não veem. Como então será possível que eles percebam que Deus nos abençoou, que vivemos por Seu favor e que somos nutridos por meio de Sua provisão? Afinal, eles são embrutecidos e não reconhecem que algo vem até eles das mãos de Deus […]

Eles não saberão disso através de qualquer persuasão mental ou através de qualquer compreensão verdadeira com a que deveríamos ter. Mas Moisés diz que isso será demonstrado diante de seus rostos; como, por exemplo, vemos os ímpios rangerem os dentes quando veem os fiéis prosperando e quando veem que Deus os sustenta e os mantém. E como isso acontece? Na verdade, eles ficarão surpresos com isso e não serão capazes de pensar de outra forma, a não ser que Deus realmente favorece seus adversários – não que eles levem isso a sério ou tenham uma atitude adequada a respeito, mas porque estão, pelo menos, confundidos em si mesmos. [The Covenant Enforced, pp. 117-18.]

São Tais Coisas Realmente Possíveis?

Os homens que recebem as bênçãos de Deus, mesmo os homens fiéis, terão dúvidas sobre a relação entre a obediência e as bênçãos históricas. Calvino reconheceu esse fato da vida e alertou contra isso. Infelizmente, a sua advertência não foi levada a sério por aqueles que hoje professam ser seus discípulos.

Agora Moisés repete novamente o que dissera sobre o fruto do ventre, do gado e da terra. Certamente teria sido suficiente ter prometido uma vez que todas as bênçãos corporais vêm de Deus. Mas, por um lado, vemos a desconfiança que há nos homens, em como, quando Deus lhes fala, eles discutem e respondem incessantemente, dizendo: “Sim, mas posso ter certeza disso?” E, portanto, para nos dar uma melhor resolução, Deus confirma o assunto de que Ele havia falado anteriormente. Novamente, vemos que a nossa ingratidão é tal que atribuímos à “Sorte” ou à nossa própria habilidade e ofício, as coisas que, na verdade, são feitas para nós por Deus. Por isso Ele nos chama para Si e mostra que é Ele quem faz isso.

E, por outro lado, Ele quer que compreendamos que, se pretendemos prosperar em todos os aspectos, devemos ouvi-Lo e obedecê-Lo. Pois todos os homens, sim, até mesmo os mais perversos do mundo, desejam ter descendência de seus próprios corpos, multiplicação do gado e grandes rendimentos. Mas e então? Enquanto isso, desprezamos a Deus, o autor de toda a bondade, e parece que nos esforçamos propositalmente para afastar Sua mão para longe de nós, o que é o mesmo que se eu pedisse uma esmola a um homem e depois levantasse a mão e lhe desse um tapa na orelha, ou como se ele viesse em meu auxílio e eu cuspisse na cara dele; é assim mesmo que tratamos com nosso Deus. [The Covenant Enforced, p. 119.]

Sanções Negativas Também

Não existem apenas sanções positivas na vida, mas também sanções negativas. Podemos esperar recebê-las se não honrarmos a Deus como o Soberano sancionador na história:

É certo que Deus ameaçará muitas vezes antes de finalmente executar o juízo. Consideremos, portanto, Sua longa paciência em esperar por nós (Salmo 86:15; Romanos 2:4). Pois, se abusarmos disso, resultará em nada mais do que um acúmulo e duplicação da ira de Deus para conosco, tanto que teria sido melhor para nós se Ele nos tivesse erradicado no primeiro dia do que nos ter suportado por tanto tempo. Que os escarnecedores digam que a dilação vale ouro. Não há dilação que não quiséssemos resgatar com cem mortes, se fosse possível, quando temos sido tão teimosos contra nosso Deus e tão desobedientes à Sua Palavra que transformamos em motivo de riso o fato de Ele nos dar algum sinal de Sua ira.

Consideremos, portanto, que enquanto Deus nos poupa, Ele está nos dando tempo para retornar a Ele e que, se nossos inimigos nos deixaram em paz, isso mostra Seu favor para nós, para que possamos agir para evitar Sua ira. Mas, se não O ouvirmos quando Ele fala, nem recebermos Suas advertências, então precisaremos dar ouvidos a essas Suas ameaças aqui expostas, e será necessário que Ele nos envie para outra escola. É da maravilhosa bondade de nosso Deus que, quando O provocamos dessa maneira (como vemos que o fazemos), ainda assim Ele nos tolera e faz de tudo para nos recuperar para Si mesmo, não nos forçando com muitos golpes, mas atraindo-nos de uma maneira amorosa, estando pronto para nos receber em Sua misericórdia, não se colocando como um juiz para nos afligir e condenar.

Mas o que vemos? Quando tivermos demonstrado desprezo por tudo isso, acontecerá no final (como eu disse antes) que nosso Senhor levantará contra nós outros senhores, de modo que os ímpios se levantem contra nós e procurem provocar uma matança entre nós, massacrando-nos e assassinando-nos, sendo de fato os executores da vingança de Deus – da qual fomos advertidos muito antes, embora tenhamos escolhido rir disso, continuando em nossos pecados e maldade. É por isso que eu disse que enquanto Deus falar conosco, e nós nos condenarmos e reconhecermos os nossos pecados e buscarmos a expiação com o nosso Deus para que possamos viver em paz neste mundo, então mesmo que seja a vontade de Deus que tenhamos inimigos e sejamos mantidos ocupados com guerras, ainda assim, Ele nos mantém sob Sua guarda, e somos mantidos e defendidos por Seu poder e bondade. [The Covenant Enforced, pp. 152-53.]

Não pode haver dúvida de que Calvino acreditava numa visão pactual da história, na qual o caráter ético da vida dos homens afeta suas condições exteriores. O conteúdo judicial do sistema ético de Calvino era explicitamente bíblico. Sem esta crença na causa e efeito pactuais na história, não poderia haver possibilidade de criar uma teoria social explicitamente bíblica. O fato de tal visão da história ser rejeitada pela maioria dos teólogos protestantes hoje, e ter sido rejeitada já em 1700, explica por que nenhum grupo protestante, além dos Reconstrucionistas Cristãos, tentou conceber uma teoria social exclusivamente bíblica. Também ajuda a explicar a enorme hostilidade dos teólogos calvinistas modernos e dos líderes de igrejas fundamentalistas ao Reconstrucionismo Cristão: eles odeiam a lei do Antigo Testamento profundamente. Mais do que isso, eles odeiam a ideia das sanções de Deus na história em termos desta lei, pois tal visão das sanções tornaria os cristãos moralmente responsáveis por aplicar Sua lei aos detalhes da vida, pregando publicamente as conclusões e aplicando-as sempre que legalmente possível. Em suma, tornaria os cristãos responsáveis pelo que acontece na sociedade. Responsabilidade nesta escala é o que o Cristianismo moderno tem procurado desesperadamente evitar há mais de um século.


História Eticamente Aleatória: Uma Teologia Não-Calvinista

Chegamos agora ao terceiro aspecto desta investigação: o conceito de história ensinado nos seminários calvinistas. Antes de iniciar esta investigação, consideremos mais uma vez a visão de Calvino sobre a natureza pactual das sanções de Deus. Ele insistiu que esta relação pactual não terminou com a era do Novo Pacto ou Nova Aliança:

Ora, Moisés diz que este povo será um espanto, um provérbio, um motejo e um objeto de escárnio entre as nações nas quais serão dispersos. Aqui nosso Senhor mostra que assim como Sua bondade deveria ser demonstrada entre o povo de Israel, para que todo homem se regozijasse na semente de Abraão, assim deveria o mesmo povo ser abominado e detestado. A promessa a Abraão foi assim: Todas as nações serão abençoadas na tua descendência. Claro, é verdade que devemos olhar para nosso Senhor Jesus Cristo, que é o próprio vínculo da semente de Abraão, ou então esta bênção não terá lugar ou base para se apoiar. Contudo, não obstante, aqueles que eram descendentes da raça de Abraão deveriam ter sido abençoados por Deus para que pudessem ter sido um exemplo, para que todos que desejassem a graça pudessem dizer: “Ó Deus, tem piedade de mim, como dos filhos de Abraão”, a quem Ele escolheu e adotou. Tal foi a promessa.

Eis aqui a ameaça que foi posta contra isso: quando os homens virem quão ferozmente Deus fere o povo que Ele escolheu, eles ficarão surpresos com isso e pensarão assim consigo mesmos: “É possível que aqueles a quem Deus escolheu sejam agora rejeitados e perseguidos e pisoteados com todo tipo de reprovação?” E sobre isso, os homens podem dizer: “Ó Deus, guarda-me para que eu não caia em uma situação como a deste povo.” Ou então, quando pretendem amaldiçoar, podem dizer: “Deus faça com vocês o que fez com aqueles vis judeus.” Isso deve ser entendido a partir desta passagem.

Observemos agora que só porque o Espírito Santo falou assim pela boca de Moisés, não era Sua intenção que esta doutrina servisse apenas por dois mil anos ou algo aproximado, que foi o tempo em que a lei durou até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas que hoje devemos aplicar o mesmo para nosso próprio uso. Na medida em que Deus se aproximou de nós, devemos andar em Seu temor, apesar de Satanás, para que Sua bondade brilhe em nós e seja percebida como permanecendo sobre nós. E, por outro lado, quando somos ingratos, e nosso Deus é, por assim dizer, ridicularizado por nós, é necessário que pensemos assim: “Bem, podemos recuar no caminho, mas não ganharemos nada com todos os nossos planos, pois no final certamente acabaremos envergonhados.”

Na verdade, vemos como se diz que o nome de Deus será blasfemado entre os incrédulos, porque aqueles que foram considerados fiéis anteriormente foram tão abatidos que Deus pode parecer ter falseado Sua promessa e tê-los iludido; a tal ponto a vingança de Deus deve se estender. Ora, visto que é assim, aprendamos a nos submeter a nosso Senhor enquanto Ele nos atrai para Si mesmo com gentileza, e assim mantenhamo-nos sob Sua obediência para que não nos tornemos um ditado e um objeto de escárnio para todos os ímpios, que não buscam nada além de blasfemar contra Deus e zombar de nós. Atentemos bem, digo eu, a tudo isso. [The Covenant Enforced, pp. 190-91.]

Sua linguagem não poderia ter sido mais clara. Por causa disso, podemos dizer sem dúvida que o que se apresenta como calvinismo moderno está muito longe de Calvino na área da doutrina do pacto. Na verdade, é o oposto do calvinismo, pactualmente falando. É uma longa negação da relação ética de causa e efeito na história em que Calvino insistiu, repetidas vezes.

O calvinismo moderno é geralmente amilenista ou pré-milenista. Nega que os cumpridores do pacto na história recebam bênçãos externas de Deus suficientes para superar os esforços dos violadores do pacto para suprimir o evangelho e a civilização que dele brota. Da mesma forma, eles negam que as sanções negativas de Deus na história enfraquecerão os violadores do pacto o suficiente para tornar a sua resistência ao evangelho malsucedida no longo prazo. Em suma, eles negam a visão de Calvino sobre o pacto.

Calvino era um pós-milenista. Ele pode não ter tido a consistência que Bahnsen alega,15 mas havia definitivamente um traço pós-milenista na sua teologia, embora ele, por vezes, fizesse declarações semelhantes ao amilenismo.16 Os puritanos adotaram as suas opiniões pós-milenistas, ao passo que o calvinismo continental depois de 1700 adotou os seus elementos amilenistas. Mas não há dúvida de que as suas opiniões sobre as sanções de Deus na história tendiam para o pós-milenismo: o triunfo inescapável dos cumpridores do pacto na história, antes de Jesus regressar para o julgamento final.


Meredith Kline x João Calvino

O teólogo calvinista Meredith Kline, um amilenista consistente, é um oponente igualmente consistente da teoria social baseada na ética de Calvino. Ele compreendeu perfeitamente a ligação inevitável entre a visão pactual de Calvino das sanções históricas e o pós-milenismo. Ele, portanto, rejeita a visão pactual de Calvino sobre sanções históricas. Ele adota uma visão de causa e efeito éticos na história que é essencialmente aleatória – “amplamente imprevisível”, nas suas palavras – em nome da doutrina da graça comum. “E enquanto isso [a ordem da graça comum] deve seguir seu curso dentro das incertezas dos princípios mutuamente condicionantes da graça comum e da maldição comum, a prosperidade e a adversidade são experimentadas de uma maneira amplamente imprevisível por causa da soberania inescrutável da vontade divina que as dispensa de maneiras misteriosas.”17 Compare esta visão com a visão de Calvino de uma história providencial e não-aleatória:

Portanto, vê-se como podemos possuir e desfrutar as bênçãos de Deus, que são estabelecidas para nós em Sua lei. E quando vemos que nosso Senhor entrelaça essas bênçãos com muitas aflições e correções, como se Ele nos tivesse amaldiçoado, devemos perceber que Seu propósito nisso é provocar-nos dia após dia ao arrependimento e impedir-nos de adormecer neste mundo atual. Sabemos que nossos prazeres nos deixam embriagados e desatentos a Deus, a menos que Ele nos restrinja, aguilhoando-nos e esporeando-nos para que avancemos. Assim você vê como coisas que à primeira vista pareciam contrárias concordam muito bem na verdade. E a esse respeito, Moisés diz que essas bênçãos cairão sobre nós e nos envolverão, como se ele tivesse dito que sempre teremos certeza do favor de Deus – tão certos disso que nunca nos falhará se O servirmos.

Pois a palavra “envolver”, ou vir sobre nós [“alcançar”, Dt. 28:2], indica que a graça de Deus não é passageira, como se caísse aleatoriamente e como se não fôssemos capazes de capturá-la. Não, diz Moisés, você será cercado ou envolvido por ela. E, portanto, asseguremo-nos de que a bondade do nosso Deus nunca nos falhará, de modo que nunca poderemos chegar a essa bondade, a menos que Ele nos atraia para Si. E, como estamos sujeitos a tantas enfermidades e vícios, Ele, ao nos suportar, mostra-nos que devemos recorrer à Sua bondade gratuita para o perdão dos nossos pecados pela reconciliação que Ele fez em nosso Senhor Jesus Cristo, e que nós, ao nos esforçarmos para fazer a Sua vontade, perceberemos que a bondade de Deus não deixa de ser gratuita para nós, sem nos dever absolutamente nada. [The Covenant Enforced, pp. 93-94, grifo nosso.]

Ver o mundo em termos de acontecimentos eticamente (pactualmente) imprevisíveis envolve necessariamente a adoção de uma visão deísta do mundo – um relógio a corda – ou então do domínio do caos. Calvino entendeu isso e rejeitou ambas as visões, mas especialmente a visão do Deísmo:

Vê-se, então, como devemos entender que todas as aflições e misérias que suportamos neste mundo são de fato golpes das próprias mãos de Deus. E nesse sentido é dito pelo profeta Amós: “Há algum mal na cidade que Deus não tenha feito?” (Amós 3:6). Isso quer dizer: “Pode acontecer guerra, ou peste, ou fome, ou doença, ou pobreza, ou qualquer outra calamidade, que não venha de Deus para vocês? Pessoas miseráveis, vocês são tão tolas e bestiais a ponto de imaginar que Deus, que criou o mundo, deixou-o ao acaso e não se preocupa em zelar pelas Suas criaturas, nem em conceder-lhes o que Ele acha que lhes convém? Não mostra Ele às vezes a Sua bondade e às vezes faz com que O sintam como juiz, punindo os pecados dos homens, e fazendo com que os homens saibam qual é o Seu ofício? Vocês acham que Ele vive ocioso no céu, e que Ele não expõe Seu poder, ou que o mundo não é guiado e governado por Sua providência?” [The Covenant Enforced, p. 140.]

A visão de Calvino da história era que a base do desenrolar da história não é nem gnóstica (princípios ocultos) nem deísta (princípios matemático-mecânicos). Ele não pensava que devíamos desesperar-nos em encontrar a mão de Deus na história, quer devido à sua natureza supostamente oculta, quer devido à sua substituição por leis científicas. Gostaria que pudéssemos dizer o mesmo sobre a visão de Kline.

Calvino também não adotou uma interpretação de Gênesis 1 que negasse sua historicidade – sete dias literais – embora tal interpretação reformulada (a “hipótese da estrutura literária”) faça parecer que Gênesis 1 pode ser conformado ao cronograma muito diferente dos cientistas evolucionistas pagãos. Ele reconheceu claramente que a causa e o efeito científicos não são substitutos válidos para as causas e efeitos revelados por Deus.

Agora, finalmente, é-nos declarado aqui que o curso da natureza, como o chamamos, nada mais é do que a disposição da vontade de Deus, e que Ele exerce tal governo sobre o céu e a terra, e sobre a chuva e o bom tempo, que Ele os muda a Seu próprio prazer, e ainda assim não os envia sem justa causa. Se houvesse uma ordem permanente na natureza, pareceria-nos que Deus nunca se intrometeu nela; admitiríamos que Ele fez o mundo, mas diríamos então que Ele não o governa. Pensaríamos assim: “O quê? Quando chega a primavera, vemos que o resto do ano segue o mesmo curso do ano anterior. É sempre o mesmo.” Mas, na verdade, vemos que um inverno é mais longo, e outro inverno mais tardio, e outro chega mais cedo e, ainda assim, mais prolongado; vemos um inverno chuvoso e outro seco; vemos abundância de neve em um ano e em outro ano nenhuma; um ano é quente, outro frio. Agora, tal desigualdade não torna manifesto que Deus está trabalhando? Pois o sol desempenha sua função tão bem num ano como no seguinte, e sempre mantém seu curso justo melhor do que os melhores relógios do mundo. Como, então, conseguimos tanta variedade de clima? É obra de Deus para nos chamar para Ele.

Na verdade, os filósofos (e cientistas) procuram as causas tal como as designam. Existe tal encontro de estrelas (dizem eles), e isso resulta de tal e tal conjunção. Mas de onde vem tudo isso, senão da mão de Deus? Devemos sempre recorrer à causa primeira. E, de fato, tais homens nada mais são do que bestas se não admitirem isso!

No entanto, não é suficiente saber que Deus guia todas as Suas criaturas e que Ele as mantém refreadas para fazê-las curvar-se, assim como um cavaleiro faz seu cavalo virar para um lado e para o outro, parar e correr. Não é suficiente saber que Deus solta, amarra e envia as mudanças que Ele deseja; antes, devemos também compreender que Deus não faz nada sem razões. Pois se dissermos que Deus governa o mundo e não sabemos por que Ele nos aflige, rapidamente estaremos inclinados a murmurar contra Ele. E enquanto isso não lucraremos com Seus castigos e correções, mas continuaremos entorpecidos em nossos pecados. Então, observemos que, ao fechar os céus para que não chova, e ao secar a terra tornando-a como ferro, Ele está nos mostrando nossos pecados e que Ele é nosso juiz. Isto é o que devemos ter em mente a respeito do curso da natureza, tal como nos é declarado aqui. [The Covenant Enforced, pp. 143-44.]

Calvino prestou mais atenção ao conceito bíblico de providência do que à ciência. Eu gostaria que pudéssemos dizer o mesmo sobre Kline.18 Sobre a questão da causa e efeito históricos, falar do calvinismo de Meredith Kline faz tanto sentido quanto falar do calvinismo de Calvin Klein.


Conclusão

O Pacto Aplicado poderia ter sido chamado de O Calvino Esquecido. O legado teonômico de João Calvino tem sido negligenciado pelos seus herdeiros espirituais desde a restauração do rei Carlos II em 1660. O puritanismo inglês e colonial americano tornou-se cada vez mais pietista após a Restauração. O calvinismo continental também se tornou pietista. Ambas as alas abandonaram o respeito de Calvino pela lei do Antigo Testamento. Ambas as alas abandonaram a visão de Calvino sobre causa e efeito éticos. Ambas as alas abandonaram seu pós-milenismo.19

Havia aspectos ambivalentes no pensamento de Calvino. Tal como o seu pós-milenismo, a teonomia de Calvino não era rigorosa. Ele fez declarações contra os anabatistas legalistas e comunistas que o fizeram parecer hostil à lei mosaica, levando Rushdoony a criticá-lo por ter ensinado “absurdos heréticos”.20 Precisamos reconhecer que as questões sociais e teológicas do século XVI eram menos desenvolvidas do que as discussões de hoje em muitos aspectos, apesar do rigor intelectual muito maior das discussões teológicas daquela época em comparação com as nossas. Mas isto não deve nos cegar para o óbvio: a teologia do pacto de João Calvino era de fato biblicamente pactual em sua estrutura. Ele acreditava 1) na soberania de um Deus Criador, 2) num Deus que se revela na história, 3) num Deus que estabelece leis fixas, 4) num Deus que traz sanções históricas previsíveis em termos dessas leis, e 5) num Deus que (provavelmente) levanta Seu povo para a vitória na história. Ele não adotou os seis loci da escolástica protestante do século XVII, com sua definição restrita de teologia. Seu calvinismo não era estritamente teológico; era cultural no sentido mais amplo.

Neste sentido, Calvino foi um reconstrucionista cristão. O seu legado é um que vale a pena recuperar ou suprimir, dependendo da agenda de cada um. (Quando você encontrar um calvinista que pareça estar envolvido na supressão, pergunte a si mesmo: “Qual é a agenda dele?” Então procure a resposta.)


  1. Gary North, Was Calvin a Theonomist? (Tyler, TX: Institute For Christian Economics, 1990). Disponível em: https://www.garynorth.com/freebooks/docs/pdf/was_calvin_a_theonomist.pdf ↩︎
  2. Instituto do Movimento da Tradição Teonomista Reformada Brasileira (Instagram, YouTube) ↩︎
  3. A ser futuramente publicado em língua portuguesa pela Pós-Milenismo Produções. [N. E.] ↩︎
  4. A Restauração de Carlos II na Inglaterra em 1660 marca o início do declínio. ↩︎
  5. Veja meu livro Crossed Fingers: How the Liberals Captured the Presbyterian Church (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1996). ↩︎
  6. Ray R. Sutton, That You May Prosper: Dominion By Covenant (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1987). ↩︎
  7. Eu disse a ele em 1977 que teonomia deveria ser uma combinação das palavras gregas para “vendas reduzidas”. Eu estava errado, embora não sobre o nível de vendas. É um composto de theos (Deus) e nomos (Lei). ↩︎
  8. Greg L. Bahnsen, Por Este Padrão: A Autoridade da Lei de Deus nos Dias de Hoje (Pós-Milenismo Produções, 2026), p. 26. ↩︎
  9. Greg L. Bahnsen, “The Reconstructionist Option,” em Bahnsen e Kenneth L. Gentry, House Divided: The Break-Up of Dispensational Theology (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1989), p. 32. ↩︎
  10. Os computadores modernos “pensam” digitalmente; eles são, na realidade, idiotas gigantes, não cérebros gigantes. A. L. Samuel, citado por by Nicholas Georgescu-Roegan, The Entropy Law and the Economic Process (Cambridge, Massachusetts: Harvard Univer sity Press, 1981), p. 92. ↩︎
  11. Também leva à multiplicação de críticos que não o leem antes de publicarem as suas críticas. ↩︎
  12. Covenant Enforced, p. 54. ↩︎
  13. Robert A. Nisbet, Social Change and History: Aspects of the Western Theory of Development (New York: Oxford University Press, 1969). ↩︎
  14. Sutton, Prosper, cap. 4. ↩︎
  15. Greg L. Bahnsen, “The Prima Facie Acceptability of Postmillennialism,” Journal of Christian Reconstruction, III (Winter 1976-77), pp. 69-76. ↩︎
  16. Gary North, “The Economic Thought of Luther and Calvin,” ibid., II (Winter 1975), pp. 102-6. ↩︎
  17. Meredith G. Kline, “Comments on an Old-New Error,” Westminster Theological Journal, XLI (Fall 1978), p. 184. ↩︎
  18. Pelo menos alguns de nós que frequentávamos o Seminário Teológico de Westminster no início dos anos 1960 reconheceram que Studies in Genesis 1 [Estudos em Gênesis 1] de Edward J. Young foi uma rejeição da visão de Kline, embora Young tivesse usado Nic Ridderbos como pretexto, de forma educada. É lamentável que o filho de Young, Davis, não tenha seguido os passos de seu pai. ↩︎
  19. O pós-milenismo de Jonathan Edwards e dos seus seguidores não era teonômico; era pietista e emocional, em vez de cultural. Gary North, Political Polytheism: The Myth of Pluralism (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1989), cap. 7, subseção sobre “O Grande Despertar”. O pós-milenismo da tradição de Princeton também não estava relacionado com considerações sobre a lei bíblica. Veja Gary North, Dominion and Common Grace: The Biblical Basis of Progress (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1987), Apêndice. ↩︎
  20. R. J. Rushdoony, The Institutes of Biblical Law (Nutley, New Jersey: Craig Press, 1973), p. 9. ↩︎

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