Por Daniel P. Rodrigues
Ao se abordar as implicações da teologia cristã para o trabalho do cristão e da Igreja em outras esferas, como a política, um aspecto que certamente não se considera em primeira análise é a escatologia, o estudo das últimas coisas, ou do fim dos tempos. Mesmo nos debates doutrinários e teológicos, tal assunto é frequentemente negligenciado, por ser tido por muitos como algo complexo, incompreensível ou como não possuindo impacto para o viver do cristão.
Outro fato que contribui para a aversão comumente nutrida à escatologia é a sua associação indevida a devaneios conspiratórios ou especulações infundadas. Uma breve busca por ‘fim dos tempos’ em qualquer mecanismo de pesquisa ou rede social bastará para comprovar essa percepção, ao se observar que os resultados mais populares não serão os de pastores e mestres expondo o que a Escritura declara sobre o fim, mas sim de autoproclamados ‘especialistas’, munidos das mais recentes elucubrações fantasiosas sobre os temas escatológicos.
A despeito disso, porém, é impossível ignorar o fato de que a revelação escatológica é parte constituinte da Escritura revelada, compondo, dessa forma, “todo o conselho de Deus” (At 20:27, ACF), sendo “dada pela inspiração de Deus, e é proveitosa para doutrina, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm 3:16-17).
Ademais, a escatologia, por se tratar da percepção do cristão com respeito ao desenvolvimento e fim da história humana, impacta diretamente na perspectiva de futuro que é nutrida, bem como nos objetivos de longo prazo que são almejados. Sobre este ponto, o economista e teólogo reconstrucionista Dr. Gary North comenta:
A perspectiva de tempo de uma pessoa é importante para as tarefas que ela começa a fazer, o capital que investe e a taxa de retorno que espera. Quanto menor o tempo restante, mais capital precisamos no início de nossas tarefas e maior deve ser a taxa de retorno para concluí-las. Isso também é verdadeiro para a Igreja de Deus. Cada pessoa, cada igreja, cada família, cada governo civil, e cada organização deve decidir quanto tempo parece restar. Nossos objetivos e planos, tanto pessoais quanto institucionais, devem refletir essa avaliação.1
A escatologia, bem longe de ser um elemento negligenciável da fé cristã, um assunto restrito a círculos acadêmicos ou um passatempo para mentes excêntricas, é determinante para os projetos de longo prazo do cristão e, portanto, intrinsecamente relacionada aos assuntos que tratamos em nossa mais recente obra.
As Visões Comuns da Escatologia e Suas Implicações
Entre os cristãos no Brasil, há uma quase unanimidade com respeito à percepção escatológica sustentada, com apenas diferenças de menor impacto entre as diferentes perspectivas.
Compreende-se, comumente, que as condições de vida na Terra e o estado ético da humanidade como um todo piorarão gradualmente ao longo da história, até a ascensão de um Anticristo Escatológico, frequentemente descrito como um líder de um governo global totalitário e vindouro, seguida pela Grande Tribulação, um período de aflição sem precedentes para a humanidade, em especial, para os que se mantiverem fiéis a Deus. Este período de terrível angústia é finalizado com os flagelos descritos no livro de Apocalipse, e a destruição do Anticristo na Segunda Vinda de Cristo.
As divergências entre as correntes escatológicas majoritárias em nosso contexto (o amilenismo, o pré-milenismo histórico e o pré-milenismo dispensacionalista) consistem nos eventos que antecedem ou sucedem este período de Grande Tribulação: se há ou não a instauração de um reinado terreno de Cristo por Mil Anos (o Milênio) antes do Juízo Final, se ocorre ou não um arrebatamento dos justos antes do início da Grande Tribulação, e se há ressurreições distintas de justos e injustos ou uma única ressurreição geral na Segunda Vinda.
Não trataremos aqui de tais distinções em minúcias.2 O que deve ser observado, no entanto, é que as perspectivas escatológicas descritas anteriormente são unânimes em afirmar que a história humana, invariavelmente, caminha em direção a uma decadência irreversível, culminando em um cataclismo a nível global.
Tal decadência também incorre na diminuição da influência do Reino de Deus e da Igreja na Terra à medida que a história progride, com alguns expositores afirmando, até mesmo, a quase aniquilação da Igreja antes da Segunda Vinda de Cristo, como sustenta, por exemplo, o renomado teólogo reformado amilenista William Hendriksen em seu comentário ao Apocalipse:
Essa condição resultará, finalmente, na completa destruição da Igreja como poderosa e influente organização de disseminação do evangelho.3
Uma visão pessimista com respeito à escatologia, especialmente no que tange à influência do Reino de Deus na história, não é apenas incompatível, como também nociva e detrimental para a defesa de uma cosmovisão cristã todo-abrangente. Se a história humana verdadeiramente está consignada a uma degradação contínua, a despeito dos esforços da Igreja, a defesa de fundamentos cristãos para a esfera pública e da construção de nações cristãs é um empreendimento fútil e, em última instância, infrutífero. Como declara Gary North:
Se o Arrebatamento já está logo ali, então a Besta e o Anticristo já estão em nosso meio, preparando-se para aproveitar cada oportunidade para enganar, perseguir e tiranizar o mundo no geral e, em especial, os cristãos. Isso significaria que todas as tentativas por parte de cristãos para melhorar esse mundo através da pregação do evangelho e da obediência à Palavra de Deus estão fadadas ao fracasso. Não haveria tempo suficiente para recuperar nada das garras da derrota escatológica inevitável.4
Isso é perceptível na maneira em que alguns dos defensores de tais correntes enxergam a incumbência da Igreja na história. O historiador Dwight J. Wilson, em sua obra Armageddon Now! [Armagedom Agora!], observa:
Ao final da década [de 1920], portanto, os pré-milenistas [dispensacionalistas] acreditavam […] que o Armagedom “não estava muito longe”, “não estava tão distante”, ou era esperado “muito em breve.” Tal pessimismo fatalista teve implicações práticas para a Igreja, que foram expressas de forma bastante explícita: “Para a Igreja, a questão é clara. Ela não deve esgotar suas forças lutando as batalhas da democracia nas urnas ou envolvendo-se em cruzadas em nome da vã esperança de trazer a paz mundial” […] “[…] Acaso devemos, neste tempo, continuar a orar pela paz mundial quando a resposta que buscamos estaria em contradição ao programa de Deus revelado em Sua Palavra?”5
A mesma tendência é observada também em expositores contemporâneos. O autor dispensacionalista Dave Hunt, ao descrever a incumbência da Igreja, em vista de seu pessimismo escatológico, declara:
[A Igreja] está aqui apenas como um instrumento de contenção por parte de Deus. Não é a nossa tarefa transformar esse mundo, mas chamar para fora dele aqueles que responderem ao evangelho.6
O influente líder neopentecostal brasileiro Renato Cardoso, em seu comentário ao Apocalipse, desdenha da atuação cristã na esfera pública, retratando-a de maneira mordaz, enquanto a contrapõe à devoção pessoal:
Infelizmente, muitos cristãos acham que fazem a diferença no mundo em que vivem ao responderem a provocações, brigarem com grupos defensores dos homossexuais e participarem de passeatas. Porém, a diferença que o cristão faz na sociedade é — principalmente — por meio de seu comportamento e de seu exemplo de caráter.7
Diante disso, fica nítido como as perspectivas mais comuns com respeito ao fim dos tempos, em última instância, são danosas ao esforço cristão de longo prazo e acabam por delimitar o escopo de atuação da Igreja na história. Assim, torna-se evidente que a defesa consistente da aplicação dos fundamentos bíblicos a todas as áreas da vida, em especial à esfera política, requer também uma escatologia na qual as implicações do crescimento do Reino de Deus se desenvolvem na história.
A Visão Pós-Milenista
Dentre as perspectivas estacológicas abarcadas pela ortodoxia cristã, o pós-milenismo é a única que, sob princípios exegéticos sólidos, vai na contramão da tendência pessimista descrita anteriormente.
O pós-milenismo, de maneira similar ao amilenismo, sustenta que o Reino de Cristo foi inaugurado em Sua Primeira Vinda e não aguarda a Segunda Vinda. No entanto, ao contrário deste, afirma o crescimento progressivo deste Reino ao longo da história por meio da pregação do Evangelho, que traz consigo implicações tangíveis para todas as áreas do viver humano.
Cristo, em Suas parábolas, compara o Reino a “um grão de mostarda”, “a menor de todas as sementes” que, sendo plantado, cresce para se tornar “a maior das plantas e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu e se aninham nos seus ramos” (Mt 13:31-32). A seguir, Ele o compara “ao fermento que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt 13:33). De igual modo, o pós-milenismo compreende que o Reino de Cristo se expande a partir de um princípio aparentemente insignificante, a ponto de, eventualmente, cobrir toda a terra e influenciar todos os aspectos da vida.
Por meio da expansão do Reino, Cristo vence Seus inimigos na história, até que ponha “a todos […] debaixo de seus pés” (1Co 15:25). O resultado disso será que, antes da Segunda Vinda de Cristo, haverá um longo período de prevalência do cristianismo e a conversão de grande parte da humanidade, de tal modo que:
“A terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Is 11:9)
O pós-milenismo compreende a Grande Comissão não como meramente chamado de indivíduos vindos de diversas nações à salvação, mas como o eficaz discipulado e conversão de nações inteiras, por meio da fiel exposição do Evangelho. Como o célebre teólogo reformado Dr. Loraine Boettner magistralmente descreve:
Cremos que a Grande Comissão inclui não apenas o anúncio formal e externo do Evangelho pregado como um ‘testemunho’ às nações, como pré-milenistas e amilenistas defendem, mas sim a verdadeira e eficaz evangelização de todas as nações, para que assim os corações e as vidas das pessoas sejam transformados por ele.8
Uma vez que, ao designar a Grande Comissão à Igreja, Cristo declarou que Lhe foi dado “todo o poder no céu e na terra” (Mt 28:18), ela não deve ser vista como uma missão impossível ou um ideal inalcançável. O mesmo Senhor Ressurreto e Glorificado que incubiu a Igreja de tal missão também assegurará o seu sucesso. Como o teólogo reformado O. T. Allis observa:
A linguagem da Grande Comissão abrange todo o mundo; e tem por trás a autoridade e o poder d’Aquele que disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações.” O dever da Igreja é dedicar-se a cumprir essa incumbência em antecipação à vinda do Senhor, e não esperar que Ele a chame para a glória antes que sua tarefa seja concluída.9
Tal compreensão vitoriosa do Reino impele o cristão a trabalhar com afinco em para a glória de Cristo em todas as áreas e aspectos da vida, sabendo que seus esforços não serão em vão, mas contribuem para a vitória final do Cordeiro. Não é de se surpreender que, entre os autores citados para fundamentar os conceitos expostos em nossa última obra (a saber, James B. Jordan, Gary North, David Chilton, Greg L. Bahnsen e o próprio R. J. Rushdoony) também sustentaram uma escatologia pós-milenista.
A título de exemplo, Gary North afirma o pós-milenismo como sendo instrumental para sua pesquisa na aplicação dos fundamentos bíblicos para a área econômica:
O pós-milenismo é uma motivação importante para os estudiosos que se dedicam conscientemente à Reconstrução Cristã de longo prazo. As pessoas frequentemente me perguntam: “Será que a escatologia que um cristão faz tanta diferença assim?” E eu respondo: “Depende do que o cristão em questão deseja fazer com sua vida.” […] Qualquer pessoa que acredite que o mundo inevitavelmente cairá em pecado de forma cada vez pior, e que os cristãos desfrutarão de uma influência histórica progressivamente menor, é um candidato altamente improvável para uma vida de estudos – e provavelmente autofinanciados – para descobrir como os princípios bíblicos poderiam e deveriam ser aplicados à história em um campo acadêmico específico que também é um campo do mundo real […] Em certo sentido, tal esforço seria imoral. Seria um desperdício dos recursos limitados de um cristão.10
Conclusão
O presente artigo não tem o propósito de esgotar a discussão com respeito às implicações da posição escatológica que se adota. Porém, esperamos ter demonstrado que uma escatologia pessimista é, em última instância, detrimental ao empreendimento de projetos de longo prazo, tanto por parte do cristão como indivíduo quanto da Igreja como um todo.
Ademais, a defesa da aplicação dos padrões bíblicos a todas as áreas da vida é não apenas beneficiada, como também impulsionada por meio da adoção de uma escatologia otimista, centrada na perspectiva bíblica de expansão do Reino na história.
- Gary North, Febre de Arrebatamento (Pós-Milenismo Produções, 2025), p. 77 ↩︎
- Para exposições detalhadas sobre cada uma de tais correntes escatológicas, veja Robert G. Clouse, ed., O Significado do Milênio (Base Livros, 2021); Millard J. Erickson, Escatologia: A Polêmica em Torno do Milênio (Edições Vida Nova, 2024); Darrell L. Bock, ed., O Milênio: Três Pontos de Vista (Editora Vida, 2005); C. Marvin Pate, ed., As Interpretações Do Apocalipse: 4 Pontos De Vista (Editora Vida, 2009). ↩︎
- William Hendriksen, Mais que Vencedores (Editora Cultura Cristã, 2018), p. 175. ↩︎
- Gary North, Febre de Arrebatamento, p. 116. ↩︎
- Dwight J. Wilson, Armageddon Now!: The Premillenarian Response to Russia and Israel Since 1917 (Institute for Christian Economics, 1991), pp. 80-81, citando I. R. Wall, “Christ and Antichrist,” The King’s Business, XX (November, 1929), 525 e D. Grether, “Disarmament and the Signs of the Times,” Moody Monthly, XXII (February, 1922), 806, respectivamente. Grifos adicionados. ↩︎
- Dave Hunt, Whatever Happened to Heaven? (Eugene, Oregon: Harvest House, 1988), pp. 268-69 ↩︎
- Renato Cardoso, A Terra Vai Pegar Fogo (Unipro Editora, 2020), p. 68. ↩︎
- Loraine Boettner, Pós-Milenismo (Pós-Milenismo Produções, 2025), p. 25. ↩︎
- O. T. Allis, “Foreword,” em Roderick Campbell, Israel and the New Covenant (Presbyterian & Reformed, 1954), p. ix. ↩︎
- Gary North, The Dominion Covenant: Genesis (Institute for Christian Economics, 1987), pp. xvi-xvii. ↩︎







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