A Ressurreição dos Mortos e a Razão

A Ressurreição dos Mortos e a Razão

Título Original: Sobre a Razoabilidade da Doutrina a respeito da Ressurreição dos Mortos1
Por Samuel Lee, D. D.
Introdução por Daniel P. Rodrigues

Dentre as doutrinas comuns à escatologia ortodoxa, talvez não haja outra que sofra tamanhos ataques e zombaria, tanto por parte de céticos quanto de hereges, quanto a doutrina da Ressurreição dos Mortos ao fim da história, na Segunda Vinda de Cristo.

A Escritura é explícita — e assim o cristianismo ortodoxo o tem crido, desde a Era Apostólica até os nossos dias — que, como Cristo foi ressuscitado, assim também o seremos (1Co 15:20-22). Como diz o Apóstolo João, mediante a inspiração do Espírito Santo, na Ressurreição, “haveremos de ser semelhantes a ele; porque haveremos de vê-lo assim como ele é (1Jo 3:2). Em sua primeira epístola aos cristãos em Corinto, o Apóstolo Paulo é ainda mais enfático, afirmando que, se não há ressurreição corpórea dos mortos, também não houve a ressureição de Cristo e, portanto, vossa fé é vã e “apenas nesta vida temos esperança em Cristo, [sendo] os mais miseráveis de todos os homens (1 Co 15:17, 19).

A despeito disso, adeptos da heresia do Preterismo Completo, no afã de consignarem todas as profecias escatológicas a 70 d.C., zombam de tal gloriosa esperança, retratando a ressurreição corpórea do fiel como algo ilógico ou absurdo. A título de exemplo, o “pastor” David B. Curtis, uma das lideranças de tal movimento nos EUA, numa demonstração de pura incredulidade, desdenha da promessa da ressurreição:

Você já pensou como o Senhor irá recompor todos aqueles corpos em decomposição? Será que Ele irá reunir e reajuntar todos os átomos e moléculas espalhados que compunham os corpos individuais no momento da morte? […] Após a morte, diversas partículas corporais retornaram ao pó, voltaram à cadeia alimentar, foram assimiladas por plantas, comidas por animais e digeridas em inúmeros outros corpos humanos. Na ressurreição, quem é que obtém quais moléculas novamente?2

No seguinte breve artigo, o teólogo e linguista britânico Dr. Samuel Lee, renomado por seu trabalho de resgate e tradução do siríaco da obra A Teofania de Eusébio de Cesareia, rebate tais pontos levantados por céticos e hereges, demonstrando, a partir do pressuposto da infalibilidade e autoridade das Escrituras, que a Ressurreição dos Mortos deve ser reconhecida como uma verdadeira e essencial doutrina pelo cristão.

*****

Que o conhecimento ou a razão humana não possa chegar a nenhuma conclusão imediata quanto à certeza, ou não, deste evento [i.e., a Ressurreição dos Mortos], é uma verdade à qual, talvez, nenhuma objeção possa ser feita. A analogia pode, de fato, ser utilizada a título de ilustração, e isso tem sido feito com frequência e sucesso; mas a analogia não pode ir além disso: e, portanto, aqui, como em nossa última questão, somente a autoridade deve determinar o que é certo ou errado. Nossa única questão, no entanto, agora é se há ou não algo de irracional na própria doutrina, tal como é proposta para crença nas páginas de nossas Escrituras: e é isso que passamos a considerar agora.

Em primeiro lugar, então, não precisamos nos deter no fato da morte e consequente dissolução do corpo: nossa primeira questão será, portanto (fundamentada neste fato), se é crível ou não que essa massa possa novamente ser chamada de volta à vida e colocada na posse de todas as faculdades que outrora possuiu? Minha resposta é: Supondo que a Onipotência se encarregue de fazer isso, não conheço nenhuma razão pela qual devamos supor o evento em si impossível, ou sequer improvável. Aquele que primeiro criou o corpo e o formou do pó pode, pelo que sabemos, investi-lo novamente de vida e sensibilidade: e se Ele tiver algum fim beneficente a realizar por meio deste evento, talvez nenhum argumento possa ser produzido para demonstrar que seja improvável. Outras dificuldades, no entanto, foram levantadas, das quais a seguinte parece ser a mais formidável. Se, argumenta-se, este corpo idêntico deve, com todos os seus membros, doravante ser ressuscitado para a vida, como, sob a suposição de que várias partes dele tenham sido depositadas em diferentes partes da terra, ou devoradas por bestas ou peixes, a identidade deve consistir ou ser reconhecida? As partes, por exemplo, tão separadas, devem ser novamente reunidas, osso ao seu osso, tendão ao seu tendão, e assim por diante em todos os outros detalhes? E então, quando a improbabilidade disso parece ser estabelecida, chega-se à conclusão de que tal coisa não pode ser razoavelmente esperada que aconteça e, consequentemente, que a própria doutrina é inacreditável. Creio ter exposto esse argumento com toda a força que seus defensores lhe costumam atribuir. Vejamos agora até que ponto ele é ou não conclusivo.

Em primeiro lugar, então, a perfeita identidade da matéria aqui defendida parece-me ser uma condição desnecessária e irracional. Se, de fato, deverei ser novamente dotado de um corpo, composto de toda, ou apenas parte, da matéria que constitui aquele que agora possuo, tendo ainda os mesmos poderes, sentimentos e capacidades, ampliados e aprimorados, quem sabe, a um grau indefinido; pode ser de pouca importância para mim se haverá ou não uma identidade total com toda a matéria anterior que o compunha. Pois, pode-se perguntar, quem sabe quão pouco da composição que qualquer pessoa, quando bebê, traz ao mundo, continua com ela até a idade mais avançada e, em seguida, desce com ela à sepultura?

A identidade perfeita, então, parece dificilmente reconhecível durante a vida presente, embora a identidade do corpo nunca seja posta em dúvida; e, se for esse o caso, o ponto a ser determinado agora deve ser: Quanta daquela matéria primitiva idêntica deve ser esperada em uma futura ressuscitação do corpo, a fim de constituir a identidade na pessoa? Pode-se responder: Como nem a razão nem a ciência podem determinar o caso de um, nenhuma delas deveria tentar fazê-lo no outro: e, pelo que podemos perceber, não há necessidade de se pensar em tal determinação. Se é uma doutrina das Escrituras que isso acontecerá, e se pode ser demonstrado que as declarações assim feitas são confiáveis, a razão não pode ter mais a objetar do que teria à razoabilidade da produção de uma árvore a partir de uma bolota,3 ou ao crescimento de uma espiga de milho a partir do grão. Ambos devem ser produzidos por um poder nada menos que Onipotente, quer ele opere pelos caminhos ordinários ou extraordinários da Providência. A razão, em um caso, nunca pensaria em propor objeções ao que é obrigada a reconhecer como fato: e, no outro, a dificuldade não é, em nenhum sentido, maior, nem o evento proposto menos provável. Pois se a expiação, como já demonstramos, foi empreendida e realizada com o propósito de restaurar tudo o que foi perdido pela queda, de forma alguma é improvável que a ressurreição do corpo também tenha sido tencionada como uma consequência invariável, embora nem sempre para desfrutar do mesmo grau de beatitude; e é nesse sentido que a Escritura parece argumentar quando fala dessa doutrina. Sendo esse o caso, nada pode ser mais razoável, nada mais provável, do que o fato de a obra do nosso Redentor ter sido completa em todas as suas partes; e em um aspecto excedendo até mesmo as bênçãos da criação e de um paraíso terrestre, a saber, ao ressuscitar o corpo para a vida eterna e dar-lhe uma herança entre os santos na luz. Onde, quando ou como isso acontecerá, nossas Escrituras em nenhum lugar nos informam; e, como a solução dessas questões manifestamente excede os poderes humanos de efetuar, nunca poderá ser da alçada da razão, como certamente não o é da ciência, tentá-la; tampouco uma ou outra pode declarar o evento impossível. A razão não tem aqui nada do qual tal conclusão possa ser tirada, e a ciência é completamente desprovida de matéria sobre a qual a observação possa ser feita.

Se, então, nenhuma impossibilidade pode aqui ser estabelecida, e este é o fato; e se não for irracional esperar o evento, o que também afirmamos ser o caso; então, se nossas Escrituras o mencionam como certo, e podemos demonstrar que estas são dignas de toda aceitação, seguir-se-á que a razão é obrigada a admitir isso também como um ponto de fé. Mas deve-se observar que nossas Escrituras não apenas ensinam isso como uma doutrina revelada do alto, elas também o exemplificam em um fato bem atestado. Se, portanto, puder ser demonstrado que esses livros são dignos de crédito, nenhuma objeção razoável poderá ser feita a esta doutrina.

  1. Fonte: Samuel Lee, Six Sermons on the Study of the Holy Scriptures (London: James Duncan, 1830), pp. 22-25 ↩︎
  2. David B. Curtis, “The Resurrection of the Dead”, The Finished Work of Christ. Acesso em 6 de maio de 2025. Disponível em: https://sites.google.com/site/thefinishedworkofchrist/the-resurrection-of-the-dead ↩︎
  3. I.e., a noz do carvalho [N. E.] ↩︎

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